Há um péssimo hábito que cultivei por muitos anos: tecer apostas com o diabo. Não porque eu tenha muita intimidade com ele, não tenho. Sei dele apenas o óbvio. Uma das primeiras apostas que fiz com ele foi que ele não conseguiria me encaminhar mal pela vida. Ainda era criança quando enterrei uma carta particularmente premonitória no galinheiro da minha casa. Em oposição às minhas próprias ações, acho que podemos dizer que Deus venceu essa aposta.
Anos se passaram e não perdi o péssimo hábito de testar o diabo. Infelizmente, deveria ter aprendido antes que ele é muito articulado. Foi quando, no auge da minha soberba, sugeri que 1.000 das minhas pessoas “boas” valeriam uma das pessoas boas dele — pensei pela raridade, achei até que nem encontraria alguém.
Eu apostava alto no meu país, nas minhas pessoas e em mim. Poucos saberão o quanto acreditei nas pessoas, onde cresci, enfim, não contei o placar. Uma pena perceber que não há nada de especial em nós. Não somos o país azarão que, por sorte, está caminhando para ser uma potência do bem-estar social. Somos o país azarão com uma tonelada de coisas para resolver, inclusive no que diz respeito à empatia.
Na minha inocência nacionalista, achei que a parte em que o povo era vassalo da nossa história havia passado. Achei que entre nós havia mais pessoas dispostas a serem justas do que dispostas a se aproveitarem da vulnerabilidade alheia para machucar e ferir. Tolices.
Certa vez, apostaram que qualquer pessoa poderia matar um inocente ao vivo, enquanto todos assistem, e ninguém faria absolutamente nada. Eu brandei contra! Alto lá, não no Brasil. Sei que todos os anos milhares de brasileiros inocentes são mortos, muitas vezes as fotos da tragédia são assistidas e ignoradas como se fossem apenas uma “segunda-feira banal”. Mas, alto lá, assistir ao passo a passo de uma pessoa ser ridicularizada, humilhada e morta, isto não. Isto o meu país jamais faria sem alguma reação, nem que fosse mínima. Isto não.
Na minha tolice, pensava: esse tempo já passou. A pior parte, a mais grotesca da nossa república, é um passado tão distante que ninguém verdadeiramente ficaria completamente omisso ao ver algo assim acontecer.
Pois bem, perdi.
Cá e acolá, ainda defendo: não sabem ao certo o que está acontecendo, não conhecem a vítima de verdade, estão sendo enganados, ludibriados ou apenas se deixaram levar pelo bonde.
Infelizmente, não. Infelizmente, tenho que chegar à conclusão de que perdi para o diabo.
Se Deus é brasileiro, ainda falta muito para cada brasileiro ter um pouco de Deus.
Perdi a aposta que menos desejei perder na vida. Apostei que meu país tinha algo de especial. Infelizmente, não tem.