O que você faria se não pudesse fazer mais nada? O que faria se estivesse prestes a morrer e finalmente precisasse escolher quem você é, do que gosta, o que quer para sua vida, no que acredita e o que quer fazer pelos seus últimos anos? Eu escolheria facilmente escrever, mas, sobre escolher quem se deseja ser, essa é uma resposta bem mais complicada.
Acredito que, se eu tivesse alguns bons amigos que me conhecessem profundamente, conhecessem de verdade, eles diriam que eu sou uma imensa narcisista que, todas as vezes que passa na frente do espelho, manda um beijo imaginário para si mesma, mas, por incrível que pareça, pensa mais nos outros e no mundo do que eu mesma imagino. Possivelmente, eles diriam que eu sou obcecada por fazer coisas por mim, escrever para mim, desenhar para mim, falar comigo, rir das próprias piadas e esconder detalhes da minha vida que dificilmente alguém próximo imaginaria.
Provavelmente diriam que eu acredito firmemente que o mundo é dividido entre pessoas boas, pessoas omissas e pessoas ruins. Infelizmente, como todo o meu texto deixa claro, diriam que eu acredito que as pessoas ruins vencem cada batalha que travam — mas não a guerra. De algum modo meio augustiano, eu acredito que, de pessoa boa em pessoa boa, o mundo se torna um lugar um pouquinho melhor. A soma dos pequenos gestos, de algum modo, está servindo para criar um mundo melhor. Isso parece óbvio. Mesmo acreditando em tudo isso, eu não sei dizer em qual categoria me encaixo — talvez ninguém saiba realmente onde se encaixa.
Então, temos um problema. Se algo ruim — seja físico, mental ou de qualquer outra natureza — avançasse contra mim, dia após dia, até chegar o momento em que eu devesse decidir o que quero ser ou fazer, diria: quero ser eu, de alguma forma torta, estranha e com pouco conhecimento de causa, mas eu, até o fim. Resistir não é algo que se faça por teimosia pura; resistir é o resultado de continuar, dia após dia, tentando não sucumbir ou aceitando que irá sucumbir.
Enfim, esse é o melhor conselho que posso dar. Não é sobre encontrar algo novo, conhecer alguém novo, não é sobre tentar algo novo ou ter pensamentos sobre o que virá em seguida. Planejar a vida, infelizmente, não costuma trazer grandes resultados quanto se pensa. Ela é incerta, confusa, muitas vezes não faz sentido algum e parece que o destino decidiu colocar pedras de propósito no caminho. Porém, só podemos continuar sendo o que sabemos ser. Se falharmos, sabemos que erramos com sinceridade — talvez o mundo tenha um pouco de culpa; se acertarmos, sabemos que acertamos com sinceridade — talvez o mundo tenha um pouco de mérito.
Mas quem eu seria se não fosse eu? Quem eu seria se não pudesse acreditar que, juntando várias pequenas peças, formaremos um mundo um pouquinho melhor? Quem eu seria se parasse de tentar?
No fim, essas coisas são estranhas. A vida é estranha. Olhamos para o mundo à espera de que ele nos diga o que fazer, nos diga quem devemos ser e até onde podemos ir ou não. Mas, quando o mundo responde, só consigo ser eu. Enquanto continuar sendo sincera, continuar tentando saber quem você é e continuar sendo você, só restará uma saída: saber se o mundo serve para você ou deixá-lo.
Pode ser que chegue um momento em que você mesma perceba que o mundo não serve para si, não é agradável o bastante ou simplesmente não vale a pena. É nesses momentos que tudo deixa de ser um turbilhão dentro de nós e passa a ser certeza, a certeza de que se fez tudo o que podia ser feito.