Poema — Boa Companhia

Olhem para nós aqui embaixo, solitários. Um mundo sem quem ensine a domá-lo, sozinhos vagando no nada. Sem filhos para ensinar ou pais de quem aprender.

Perdidos em um universo solitário e, além da barreira, mais solidão: os primeiros e também os únicos. Somos amaldiçoados? Cabe-nos, tão impotentes, o infinito?

Tomara que haja mais que nós, que a solidão não nos mate. Tomara que sejamos convidados a alguma fogueira. Tudo o que temos feito… Com quem compartilharemos? Quem contará nossas histórias quando sumirmos? Quem cuidará das nossas ruínas, nos mantendo vivos na memória?

Quem nos convidaria para a festa? Não se convida à mesa aqueles que não compreendem as regras. Talvez não compreendamos. Por isso, comemos sozinhos. Tomara que algum dia compartilhemos a mesa.

Compartilhemos suas histórias e seus heróis. Talvez os seus senhores não sejam como os nossos, cruéis e frios. Largaram-nos solitários em um universo imenso. Um brinquedo de pai relapso.

Mas, alerto: se vierem compartilhar do banquete, sejam gentis e humildes. Pois o medo nos criou. E, mesmo com nosso medo, nós partiremos pela imensidão de poeira, à busca de quem deseje dormir em nossa casa.

Esperamos que, nessa hora, Deus nos livre da nossa maldade. Às vezes somos violentos… Mas creia, queremos boa companhia.


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