SOPA S/A — Simulação

SOPA S/A é uma grande empresa de tecnologia dedicada a facilitar a vida de todas as pessoas que possam pagar extremamente caro pelos seus serviços. Há quem pense que uma empresa assim só pode ser gerida por um grande gênio, mas, para decepção de todos, a empresa é gerida por um robô cuja programação era originalmente a consciência do fundador da empresa, Sr. Quincas. Porém, após ser infectado por um vírus, ele teve seu arquivo corrompido. O vírus atacou especialmente o sistema de fala do robô, então, atualmente, ele só repete três frases: “Seu projeto está aprov[…]”, “Inf[…] seu projeto foi […]ago” e a única frase que não foi corrompida é o slogan da empresa: “Estamos aqui por você!”

Semanalmente, o robô Quincas celebra sua famosa reunião de investimentos, onde jovens entram em sua sala, apresentam um relatório dos seus projetos e esperam ansiosamente pelo “sim” do fundador. A primeira a entrar na sala naquele dia foi a Senhora Vânia, uma mulher que mais se parece com uma garota, com uma camisa de rock, o rosto cheio de marcas de espinhas e o cabelo bagunçado. Os olhos são fundos, mas, escondidos por trás dos óculos pesados, parecem os de alguém realmente inteligente. Ela havia proposto, na semana passada, que poderia criar uma simulação perfeita do seu bairro, mas não explicou bem ao certo qual seria a utilidade dela.

O fundador gostou da ideia, por isso decidiu investir alguns milhões e emprestar um dos supercomputadores da empresa para ela. Não demorou muito tempo para Vânia ter a ideia de colocar pessoas dentro da simulação, especificamente os seus ex-namorados e interesses românticos não correspondidos. Também decidiu adicionar uma aceleração de tempo: na simulação, os dias equivalem a anos. O que ela não esperava era que os seus interesses românticos fossem tão inteligentes quanto ela. Então, obviamente, eles perceberam que havia algo de errado por volta do segundo dia. No terceiro dia, eles começaram a encomendar peças para criarem o próprio supercomputador. No quarto dia, veio o problema.

— Sr. Quincas, eles conseguiram criar um supercomputador que lhes revelou estarem em uma simulação. Agora pensam em processar a empresa que os colocou na simulação — explicou constrangida. Então esperou uma resposta.

— Estamos aqui por você! — disse o robô, relutante, ao que a mesa diretora traduziu como um sinal de que ela deveria continuar a explicar. Um dos diretores mencionou que a SOPA S/A não poderia ser processada naquele ano, pois toda a verba destinada a indenizações havia se esgotado no terceiro mês.

— Os senhores não precisam se preocupar muito com isso. Por enquanto, na verdade, eu tive uma ideia para contornar o problema — ela sorriu como se fosse uma ideia brilhante. — Quando percebi o que pretendiam fazer, programei o computador deles para permitir que responda apenas três perguntas sobre o lado de fora da simulação. A primeira, eles gastaram perguntando quem teria colocado eles ali, ao que o supercomputador deu uma longuíssima resposta que, na prática, não respondia nada.

— Estamos aqui por você! — falou como se concordasse que a ideia da apresentadora fosse genial.

— A segunda pergunta, um deles fez por completo impulso, escondido dos demais, após uma crise de choro por estar com saudades da mãe — a mesa ficou tensa. — Ele apenas perguntou se poderia saber qual era o clima do lado de fora da simulação, pois gostava de dias ensolarados.

— Estamos aqui por você?! — perguntou surpreso.

— Eu também me surpreendi. Ele é muito inteligente, mas acho que está com problemas emocionais desde que começou a usar muita erva. Bem, esse foi o motivo do nosso término…

— Estamos aqui por você — interrompeu.

— Voltando, desde então estou mandando um boletim diário sobre o clima e inventando algumas mensagens sobre a mãe dele. Ele está bem melhor, mas agora está sem muitos amigos na simulação. Para ser sincera, ele nunca teve muitos amigos. Esse foi o segundo motivo do término.

Então, os diretores começaram a cochichar algo. Ela decidiu continuar:

— O terceiro pedido ainda não foi feito. Eles estão discutindo muito sobre qual pergunta fazer. Eu estou receosa de que eles acabem perguntando algo sobre a empresa. Enfim, talvez o melhor seja desligar e começar novamente.

Depois de muita discussão filosófica sobre ética, bioética e problemas profundos da humanidade, a mesa diretora decidiu que era mais seguro desligar a simulação. Então, Quincas disse:

— Seu projeto está aprov[…]

A mesa diretora não conseguiu entender as motivações dele, mas ninguém ali seria capaz de vencê-lo na argumentação.


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