Crônicas de janela – Maldito país

Se fosse apenas aquele país, poderíamos dizer: maldito país, podre país, que nada de bom nasça naquela terra perturbadora! Poderíamos nos reunir e gritar maldições, apontar o dedo mais firme do mundo e dizer: doente país, doente país! Mas aqui estamos, encarando o mundo enquanto ele nos encara, pensando: a quem culparemos por nossa própria desgraça?

Mas, se fosse só aquele lado, poderíamos dizer: não vi nada de bom! Maldito lado, que nada de bom jamais produziu! Lado infeliz, ao qual desejo toda a amargura possível. Podres, podres, doentes, doentes! Então, pegaríamos nossas armas, avançaríamos com fúria e morreríamos pelo nosso lado. Jovens de olhos ferventes, arrastados com orgulho pelas ruas, caminhando e cantando em uníssono. Gritaríamos, com o ódio de uma geração infeliz e derrotada: parte imunda! Parte imunda, que desprezo! Se fosse.

Melhor seria se fossem aquelas pessoas. Então, poderíamos criar caricaturas horrorosas de figuras contorcidas como seus caracteres e diríamos: estas são as pessoas enfeitiçadas, de coração sujo, incapazes de se considerarem dignas de bênçãos. Maldito povo! Nunca se viu, antes, povo tão maldito.

Então, quebraremos suas casas, destroçaremos suas vidas, enviaremos nossos parentes à guerra, sacrificaremos nossas vidas uns pelos outros, apenas para dizer, com ou sem esperança: podre povo, podre país, podre poder! Podridão, e só podridão nasce lá.

Descobriríamos, manchados de sangue, para que serve a guerra: que paz e direitos se conquistam sobre destroços. De novo e de novo, de novo e de novo, de novo e de novo, teríamos o prazer da revolta, o prazer do fogo, da destruição. Berraríamos: povo maldito!

Acima do desastre, sentaríamos, com o queixo sobre o punho cerrado: o que sobrou? Nós e eles. Nós aqui embaixo, eles sobre altares e nossos mortos como oferenda. O vermelho mais vibrante sobre o mármore mais puro. Andaríamos com calma, olharíamos nos olhos deles, minutos antes da caça, e então diríamos: não eram eles os culpados, eles e só eles? Saberíamos, enfim, que há dois lados: o que morre e o que lucra, nessa terra, em meio ao nosso povo e ao nosso lado.

Então, mais uma vez, suados de decepção, diríamos: família maldita! Maldita gente! Espera-se de vocês o que não se espera de inimigos declarados. Pé ante pé, músculos doloridos, planos secretos, pedras e fogo. Lá estaria nos esperando a vitória, com a bandeira que amamos mais que tudo. Saberíamos que nascemos aqui, onde o sangue ferve como uma chaleira, e destronaríamos um a um, até sobrar somente nós.

No entanto, quem venceria o espelho? Só então poderemos dizer: maldito povo, como se orgulham do que fizeram?


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