Querido Cássio,
Eu não consegui dormir ao decorrer dessa noite. Aurélio V teve coragem de me levar ao salão da casa dele, com diversas pessoas estranhíssimas, e me acusar de ser fascista. Eu até pensei em me defender e teria argumentos o suficiente para dizer que não sou fascista, se eu soubesse o que isso significa. Lembro da sua irmã tentar me explicar por que eu estava errada sobre pena de morte usando essa palavra, mas, honestamente, eu não prestei atenção. O meu ramo de trabalho – lavagem de dinheiro para o crime organizado – não funcionaria direito sem a pena de morte. Acho curioso que a sua irmã detesta o meu trabalho, mas nunca parou de me pedir dinheiro para comprar livros.
Passei o dia mascando algumas línguas de insinceros que trouxeram para mim, terríveis, definitivamente não são comparáveis às carnes de humanos abatidos na hora. Há anos expliquei para a elite nixana que os insinceros criados à base de coelhos não são saborosos e temos informações suficientes para saber que eles também não são saudáveis – tudo bem que fui eu que paguei para alguns médicos falarem isso, porém, eles falaram. É isso que importa, não? Que as autoridades falem.
Enquanto eu resmungava, a empregada da casa usou como desculpa de me entregar um sangrado – péssimo, inclusive, deve estar na reserva há anos, não é fresco, definitivamente – para me passar uma carta do seu pai.
Cássio XI está bem. Disse-me que enviou uma carta para o pai dele, Cássio IX. Não tenho certeza se ele estará disposto a nos ajudar, afinal, ele é absurdamente tradicionalista e nos disse claramente que não nos apoiaria caso tentássemos tirar sua tia e seu babá da fazenda de Aurélio – por causa da ideia boba dele de que eu iria convencer Cássio XI a matá-lo. Uma imensa bobagem. Tudo bem que chegamos a pensar em matá-lo uma época e até matamos o valete (amante) dele, mas foi em uma época diferente. Agora me pergunto como está Rodrigo. Espero que não o tenham devolvido para a fazenda – a sua tia infelizmente já está morta, mas não sabemos quem matou.
Eu conheci o meu sogro muito tempo depois de já estar me relacionando com o seu pai. Ele nos pegou de surpresa no quarto. Eu ainda era humana e Cássio parecia ter preferência por isso, tanto para me esconder do meu sogro, que temia ser eliminado, quanto pelos próprios desejos dele – em algum momento espero poder ensiná-lo sobre todas as coisas estranhíssimas que os nixanos fazem durante o amor. Mas, como você é criança, vou deixar isso para depois. Gina certamente não terá competência para lhe ensinar, nem sei se em algum momento ela fez sexo na vida. Ela tinha uma amiga lésbica estranha no ensino médio, porém… Precisaria ter muita coragem para ficar com ela, e coragem é algo que a sua irmã não tem.
Quando pedi que ela se transformasse em nixana para poder resgatar o próprio babá, ela veio com o velho “blá-blá-blá” de não querer matar humanos, então eu disse: Hiana come só porco. Ela ficou toda “não me toque, não fale comigo”. Uma vez fiz um assado de leitão recheado com salsicha humana das Selenas, então acrescentei algumas batatas como favor para ela, e ela se recusou a comer as batatas só porque eram assadas com carne. Até chorou! A última coisa que quero é falar da sua irmã enquanto estou na cadeia, porém espero que ela esteja bem.
Voltando, seu avô não vai nos ajudar, afinal, lembro que ele sempre pareceu torcer para encontrar um motivo para prender Cássio. O seu pai passou 500 anos literalmente amarrado no quarto por uma corrente, pois ele desconfiava da vida amorosa do filho.
Eu e Cássio estamos juntos há muito tempo, mas ele não pensava que era algo sério. Afinal, era hábito dele sair com mulheres – o que não é o costume entre nixanos, a maior parte dorme com pessoas do mesmo sexo para evitar deixar herdeiros. A Nixa criou isso, bem como o grande harém onde acontece a orgia anual. O jantar no qual ele anunciou o nosso casamento só foi menos assustador para ele que o jantar em que anunciamos que você nasceria. Espero que ao menos a prisão do seu pai o convença a amolecer o coração.
O dia em que meu sogro nos pegou foi muito estranho, na verdade. Estávamos juntos desde 102, mas sempre dávamos um jeito de nos esconder dele. Em 113, o seu avô foi passar o mês de Nixa no Mausoléu, algo extremamente importante para um nixano da nobreza. Obviamente, ele suspeitou por Cássio XI não ter ido. Estávamos no supermercado comprando três carrinhos inteiros de carne para passarmos os 12 dias trancados no quarto. Gina, Carlos e Rodrigo tinham saído para qualquer lugar ridiculamente histórico nas viagens de férias deles. Honestamente, nem me importei. Quando um dos amantes do seu avô nos viu, tentamos despistá-lo, mas tenho quase certeza de que foi ele que nos entregou. Todos odeiam dedo-duros, exceto a polícia – quando não entregam eles. Depois nós matamos ele, é claro que não foi por esse motivo, mas ele mereceu.
Acreditávamos que não teríamos nenhum problema, então voltamos para a minha mansão – quem diria, eu com uma mansão, saída da extrema pobreza. Depois dizem que o crime não compensa. Se tem algo que compensa é o crime. Foi no 7º dia Nixano que ele nos encontrou. Estávamos na sala de estar. O seu pai curte ser pendurado e só tínhamos o lustre da sala para isso. Pode ser que uma lâmpada estivesse na boca dele, não tenho certeza. Eu segurava um chicote quando o seu avô chegou arrombando a porta.
Aquela porta custou milhares de reais. Eu comprei ela de uma madeireira especializada em árvores centenárias das florestas tropicais. Mas, óbvio, seu avô não parou para me ouvir em nenhum momento. Começou a falar sobre ter informações confiáveis de que eu e seu pai tínhamos um relacionamento romântico há 11 anos. Disse algo sobre como isso representava uma ameaça para ele. Foi terrível. Quando o seu pai finalmente conseguiu falar, explicou a situação, tentou apaziguar dizendo não ter a intenção de matá-lo.
Ele não se importou. Bateu perna, andou de um lado para o outro, sugeriu que seu pai ou deveria entrar para a guarda nixana ou ele o mataria. Por sorte, alguns minutos depois chegou a sua avódrasta, uma lindíssima nixana que originalmente era a concubina da sua avó, mas, depois de ajudar seu avô a matá-la, se tornou a esposa oficial. Ela sempre gostou de mim, defendia-me com muita frequência. Suspeito que sempre quis participar de algo comigo e o Cássio XI, mas evitava pedir por não saber lidar muito bem com a ideia de incesto.
Ela até conseguiu acalmá-lo por tempo o suficiente para ele não entrar em combustão e seu pai conseguir se vestir, porém, logo depois, o seu pai conseguiu convencê-lo de que éramos apenas um caso passageiro. Mesmo assim, passei alguns dias sem vê-lo novamente. Eu realmente sofri por amor, passei dias cheirando a cueca que ele deixou na minha casa.
Quando a família voltou, não consegui compreender o motivo de tanto choro. Raramente minha família me via chorando. Na realidade, acho que foi a primeira vez que Gina me viu chorar. Ela desandou a me abraçar e me consolar, trouxe alguns potes de sorvete. Foi realmente uma péssima experiência ter que ouvir os conselhos de uma mulher de 20 anos que nunca tinha beijado na vida sobre o amor.
Dias depois, o seu pai voltou dizendo que Amélia tinha conseguido convencê-lo finalmente, então, depois de 11 anos, finalmente iríamos assumir nosso relacionamento. A família me convidou para um jantar, um excelente jantar. Serviram um insincero inteiro assado. Estávamos apenas eu, seu pai, Rodrigo, Carlos, seu avô, sua avódrasta e os concubinos deles. No fim do jantar, depois de ter me apresentado e de o meu sogro ter percebido que eu sou profundamente rica, mesmo não tendo origens nobres, ele até começou a me tratar melhor.
Então o seu pai se levantou e disse as palavras mais bonitas que já ouvi em toda a minha vida: “Essa é a mulher com quem quero passar os próximos milênios, apenas ela. Quero casar-me com ela, se o senhor autorizar”. Ele autorizou. No nosso casamento, eu falei as mesmas palavras no juramento. O mais engraçado é que ele acreditou, porém, uma semana depois do casamento, fizemos uma suruba com outros 5 humanos.
Bom, por hoje é isso. Espero que tenha entendido o motivo de seu sogro não nos ajudar. Pretendo entrar em contato com Hiana para pedir ajuda de verdade. Por enquanto, ainda espero notícias suas. Não sei se você já está em algum lugar seguro. Pelo que ouço, não estão atrás de vocês. Tenha bons sonhos. Amo você e diga a Regina que, quando quiser entrar em contato comigo, entre.
Com amor, de sua mãe, Jordana
25º dia Brutus de 11124 d.N.