Jordana – 26º Brutus de 11124 d.N.

Hiana entrou em contato comigo, disse-me que realmente entregou você a Regina, sorte a nossa que Hiana tenha voltado para a família depois de tanto tempo longe. Ela nunca foi uma nixana regularizada, por isso está totalmente fora do radar de Aurélio V, ao menos por enquanto, pois ela me disse que estão transformando humanos comuns em insinceros para marchar para Palo e nos retirar da prisão, bem a ideia foi originalmente minha, eu fiz isso primeiro, mas não me incomoda dela estar fazendo isso agora.

Hiana voltou para casa depois de 8 anos longe, ainda mantinhamos contato por carta, mas como não manter? Vivemos uma aventura imensa e foi ela quem fez o parto de Regina, inclusive ela estava no dia que lhe dei esse nome, eu gostaria de ter tido um menino e chamar de Fabrício antes, mas agradeço que não foi possível, eu culpo André.

O dia do parto foi complicado. Estávamos eu, André  e Hiana em uma fuga eletrizante para atravessar a fronteira. No começo achei que ela era lésbica, depois ela me confirmou que de fato era lésbica e não gostei de tê-la comigo, tinha medo que a influência dela fizesse o bebê na minha barriga se tornar gay também – e se tornou, ou não, bem, vai saber o que diabos é a sua irmã. Inclusive me surpreendo com ela ainda não ter entrado em contato.

Tínhamos acabado de atravessar a fronteira, André  estava amarrado no porta-malas, pois tentou fugir quando eu lhe informei que estava grávida, Hiana com sua sagacidade indígena conseguiu capturá-lo e amarramos ele para não escapar, vez ou outra passávamos algumas fatias de pizza para ele e dávamos água para beber, mas todas as vezes que tirávamos a mordaça da boca dele, ele gritava, então começamos a alimentar em menor frequência. Ele reclama que o porta-malas era muito quente e sufocante, mas eu ainda estava com muita raiva dele para colocá-lo no banco dos passageiros. Além disso, uma vez fomos parados pela polícia apenas por ele ser preto, foi bastante desconfortável, pois tive que flertar com o policial para nos liberar, o policial fingiu acreditar que eu era maior de idade depois que evidenciei os seios. Honestamente prefiro acreditar que ele tinha fetiche em mulheres grávidas, pois se era por eu ter apenas 17 anos na época… Então ele não deveria ser policial.

Hiana até quis resolver de outra forma e matar o policial, ela estava fugindo da polícia na época também, pois tinha o hábito de atear fogo em fazendas, ela tinha alguma questão boba com os antepassados delas terem sido expulsos da terra e sei lá, morrido de catapora ou algo assim. Agora não importa, o fato é que viajar com ele no porta-malas era mais seguro, depois fomos parados por outros policiais na fronteira que só nos deixaram atravessar, pois acreditavam que estavamos levando ele, pois éramos membros de uma célula eugenista e o próprio policial disse que era mais seguro duas mulheres transportarem ele no porta-malas.

Desculpa, me perdi no relato. Estava falando sobre o dia que Gina nasceu – era um bebê realmente muito feio, tinha um nariz estranho, olhos fundos, nasceu com mais cabelo do que deveria. A primeira coisa que pensei quando peguei ela no colo foi que só deveria amamenta-la depois de comprar cera de depilação, basicamente quem cuidou dela durante o primeiro ano de vida foi Hiana, amamentei ela menos do que devia, deve ser por isso que ela gosta de mulheres ou de nada, enfim, um caso completamente perdido.

Voltando, eu estava grávida em uma viagem de carro com André  e Hiana, quando a minha bolsa estourou, então, Hiana dirigiu até um celeiro antigo, arrumou as pressas uma cama de palha, ela surpreendentemente tinha um vasto conhecimento sobre parto, já esperava que ela tivesse muito conhecimento sobre vaginas, mas sobre partos era uma novidade, na época achei que era por ela ser índia e tinha visto alguns documentários onde meninas indígenas tinham dezenas de filhos de cócoras, acontece que na verdade ela é filha de uma excelente obstetra. Uma mulher muito tradicional, mesmo sendo indígena. Acho que Hiana herdou a personalidade do pai que é um jornalista depravado e abertamente comunista.

As dores do parto foram terríveis, imaginei que nunca passaria, parecia que eu estava sendo rasgada ao meio e de fato estava, a sua irmã tinha uma cabeça imensa. Eu gritei e chorei por horas até ela sair completamente, dizem que a dor do parto passa depois do bebê nascer e vem a maior euforia do mundo, uma imensa mentira, quando vi aquela criatura feia nos meus braços eu só queria que ela não tivesse nascido, ainda mais sabendo que eu provavelmente seria mãe solteira, pois André  já tinha tentado fugir.

Quando achei que finalmente tinha acabado, Hiana me avisou que ainda sairia a placenta, foi mais uma hora inteira de sofrimento, achei que estava sendo punida por ter feito sexo antes do casamento. Quando o trabalho de parto acabou não consegui largar Regina, mesmo odiando tudo, mesmo a achando a menina mais feia do mundo, não pude deixá-la, adormeci agarrada a ela – também, porque achava que Hiana iria comê-la, ela tinha umas ideias muito liberais para mim, o fato dela ser indígena também não ajudava.

Dormi por horas, só quando acordei me lembrei de André, então perguntei sobre ele para Hiana e ela me disse que havia saído do celeiro para comprar mantimentos para nós e quando voltou não o encontrou mais. Regina cresceu com essa versão da história que também acreditava, porém alguns anos atrás eu voltei a visitar a casa das Selenas e ele estava lá, não contei para sua irmã ainda, pois mesmo depois de 25 anos ele ainda não quer ser pai e também porque ele se transformou em um nixano, então Regina só vai se decepcionar e ela é tão decepcionável, então evite conta-la.

A história real é que as Selenas – com quem já tínhamos cruzados nessa mesma viagem – estavam nos seguindo pela estrada, elas estavam precisando de um ajudante para a fábrica de salsichas, quando viram André, pensou que seria bom levá-lo com elas. Então o roubaram e o transformaram, o encontrei quando voltei lá com Cássio, o seu pai, perguntei se gostaria de conhecer a filha e ele respondeu que estava feliz ali com suas duas novas esposas, sem nenhuma criança, por isso, mantive a história de que ele havia morrido.

Com amor, mamãe

26º dia Brutus de 11124 d.N.


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