Uma garotinha decide marcar um encontro com o seu anjo da guarda todos os dias às 15 horas, e ele não sabe mais como convencê-la de que ela está no caminho certo.
Mariana era uma garota estranha. Não havia nada de muito belo nela, nem muito feio. Poderia-se dizer que tudo nela era normal, exceto pelo fato de que tinha marcado em sua agenda um compromisso extremamente importante todos os dias, às 15:00 horas. Ela devia ir para a igreja, onde conversava com um anjo que descia do céu especialmente para falar com ela.
Na primeira vez que isso aconteceu, ela levou um pequeno prato de comida, mas o anjo respondeu que não precisava lhe dar nenhuma oferta, pois o principal sacrifício já havia sido feito por Deus na cruz. Mesmo assim, Mariana levava um pratinho para garantir que ele não se sentisse ofendido.
As conversas costumam ser amigáveis, exceto quando Mariana começa a fazer perguntas excessivas sobre a vida, a sua fé ou o mundo. Mariana era uma pessoa bondosa na maior parte do tempo. Se perguntassem pela cidade sobre ela, diriam muitas coisas boas e algumas coisas ruins. Porém, as coisas ruins nem precisavam dizer, pois Mariana tem o hábito de confessar os próprios defeitos na primeira oportunidade que tem, não por ter orgulho deles, apenas por não ver motivos para escondê-los de ninguém. Certa vez, ela confessou o que considera ser o seu maior pecado: havia pegado uma fatia a mais de bolo do que deveria.
Sendo assim, as discussões costumam girar em torno de Mariana se acusar injustamente de ser a pior pessoa do mundo, enquanto o anjo a defendia de si mesma.
Neste dia, após uma conversa introdutória, o anjo lhe perguntou:
— Mariana, você costuma orar?
Mariana pensou um pouco e respondeu, totalmente segura de que estava certa:
— Se Deus sabe tudo o que penso, tudo o que sinto, tudo o que quero e tudo mais, por que deveria falar com ele? Apenas iria incomodá-lo.
O anjo sorriu, então respondeu:
— Mas e se ele quiser falar com você, mesmo que você não tenha nada de relevante a dizer?
Mariana pensou um pouco.
— Sobre o que ele gostaria de ouvir?
O anjo respondeu que talvez Deus quisesse ouvir sobre sua cor favorita, se ela preferia a noite ou o dia, se gostava quando tocavam violão ou se tinha medo de algo particularmente estranho.
Mariana não aceitou a resposta, claro. Se tivesse aceitado, não seria Mariana. Reclamou algo sobre Deus já saber de tudo isso.
O anjo voltou a dizer:
— Às vezes, Deus não quer descobrir algo novo sobre você, apenas conversar e saber que você é amiga o suficiente dele para falar algo engraçado.
— Eu deveria contar uma piada para Deus? — surpreendeu-se.
O anjo sorriu e concordou, dizendo que talvez isso fosse exatamente o que ele busca: alguém para lhe contar uma piada engraçada depois de um dia trabalhoso.
— Imagine que, depois de um dia tendo que organizar cada flor do planeta, Ele pare ao seu lado para ouvir algo engraçado.
— Ele não faria isso.
— Você realmente duvida que ele faria isso?
Depois de Mariana acenar, ele continuou:
— Pois faria ainda mais. Ele pararia tudo apenas para encontrá-la caso você se perdesse dele.
Uma pequena discussão seguiu-se, em que ela reclamava que ouvia muitas piadas na escola, mas sua péssima memória não havia guardado nenhuma para contar a Deus, enquanto o anjo dizia que não precisava ser uma piada, apenas qualquer fato, qualquer coisa, qualquer pensamento, mesmo que fosse apenas um “oi, tudo bem?” seguido de algo sobre o dia na escola.
Claro, Mariana continuou reclamando sobre não acontecer nada realmente interessante para surpreender ou despertar curiosidade em um ser eterno. Porém, ele insistia:
— Não precisa ser alguma novidade, pode ser algo simples.
Logo, Mariana voltou a resmungar.
Eles poderiam ter conversado ainda mais, mas, infelizmente, Mariana pulou correndo do banco da igreja, pois estava atrasada para o jantar.
Ele então subiu ao céu e foi falar com Deus:
— Então, como foi a conversa hoje? Conseguiu convencê-la a voltar a orar?
O anjo respondeu:
— Acho que sim.