Mariana e o anjo — O que faltava no Éden?

O anjo ainda se lembrava de Mariana como aquela garota ceboluda que lhe fazia dezenas de perguntas por minuto. Perguntava-se, com muito orgulho — orgulho de anjo da guarda —, como ela havia crescido e amadurecido tanto. Agora usava uma camisa social, uma calça de tecido e um penteado sério demais para quem ainda ria de piadas bobas como as de toc-toc.

Não se encontravam mais às 15 horas, pois agora ela trabalhava o dia inteiro. Encontravam-se quando ela saía do trabalho, toda esmagada. Pegava suas pastas e corria para a fileira do canto, onde seu anjo da guarda já a esperava.

Ela chegou tossindo, arrumando o cabelo, com um olhar seco e as pálpebras saltando do rosto.

— Oi, cheguei — sentou-se depois de curvar-se rapidamente. — Não fiz o senhor esperar muito, fiz?

— Não, pode ficar tranquila em relação a isso. Então, como foi no médico?

— Pneumonia. A segunda vez esse semestre. Sem motivo aparente — falou entre tosses. — Sabe, anjo, eu não quero morrer.

Ele gargalhou imediatamente após ouvi-la dizer aquelas palavras — um pedido que ouviam cada vez menos lá no céu.

Mariana puxou um burrito de algum lugar e, tossindo e comendo, perguntou:

— Por quê? As pessoas querem morrer agora?

— Sim, basicamente, sim. Diria que podemos resumir dessa forma.

— Por quê?

— Acho extraordinário todas as vezes que você empilha “porquês”. Lembro-me da sua infância.

Ela sorriu e acenou para algumas senhoras que se perguntavam com quem ela falava. Era curioso como todas a achavam estranha falando sozinha. Ela até pensara algumas vezes em explicar com quem falava, mas tinha medo de que soasse como alguém em busca de uma santidade que não possuía. Ela mesma não conseguia entender como havia se tornado tão íntima do seu guarda, a ponto de poder falar com ele diretamente.

Certa vez, perguntou se Deus havia lhe incumbido uma missão especial ou se fazia parte de algum plano estranho. O anjo apenas respondeu que não. Ela não era particularmente especial; o único plano no qual estava envolvida era o da própria salvação.

Também tomou muitos remédios e foi a muitos psicólogos. Não parecia ter algum problema real.

— Sabe, Mariana… É assim que a humanidade quis quando partiu do Éden. Quis seguir o próprio caminho, e isso tem custo. O mundo foi ficando pior, mais doloroso, mais infeliz, até chegar onde chegamos. Não é possível saber o que fazer, não é possível entender ou confiar, então muitos começam a desistir — engoliu em seco. — Não é o desejado, certamente. Não é o que queremos. Mas as pessoas se cansam.

Mariana lembrou da sua vida estranha. Tinha 37 anos, era solteira, não tinha filhos — não confiava nos outros para ter um relacionamento e não confiava em si mesma para ter filhos. Gostava do seu trabalho mais do que se podia imaginar, mas era exaustivo. Ganhava o suficiente para viver, mas não o bastante para viver bem.

E concluiu:

— Parece que falta cada vez mais vida. Sobra estranheza e solidão.

— Mariana, o mundo vai ficar cada dia pior. Cada dia mais doloroso, mais estranho. Você vai sentir medo, desesperança. Muitas vezes, o certo e o errado estarão tão próximos que será difícil distinguir. Vai ser doloroso, vai ser triste, solitário. Muitas vezes vai parecer que não existe solução para o mundo. Então… Ele voltará.

Mariana sorriu com esperança, a esperança que teimava em não sair dos seus olhos em nenhum momento, baseada em nada além da fé.

— Como era no Éden?

— Era perfeito. Tudo em seu lugar, tudo ao estender de uma mão.

Esticou a mão e fez surgir pão. Esticou a outra e fez surgir água.

Mariana entendeu, mas não explicou.

— Ainda nos perguntamos o que faltava.

— Alguém já deve saber o que faltava, não?

O anjo pensou um pouco.

Então disse:

— Talvez seja só como os humanos são. Eles são assim. Curiosos demais, sempre em busca de saber algo novo. Faltava o amor a Deus que não vem da mera necessidade atendida, mas do reconhecimento de que com Ele tudo é simples.

Foi o tom que a conversa assumiu naquele dia. Falaram sobre vida, esperança, desejo de que as coisas melhorassem para todos.

Então, quando o anjo subiu para passar seu relatório a Deus, disse apenas:

— Ela continua igual. Mais adulta, mais doente, mas igual.


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