Querida Joana,
Desde que lhe enviei a última carta, fiquei à espera de uma resposta sua. Não consigo entender por que não me respondeu. Quer dizer, uma vez, há muitos anos, você disse que era insuportável se relacionar comigo, pois, todas as vezes que brigávamos, eu escrevia um longo texto. No começo, você ainda tinha paciência para ler e responder cada um deles. Eu, inclusive, guardo todas as suas respostas naquela caixa de sapato que você me deu em 1997 para a minha entrevista. Com o tempo, você parou de se importar. Eu abri a mesma velha caixa e notei que sua última resposta foi de 1998, dois anos antes de terminarmos. Eu queria que você respondesse a esta, ao menos a esta, assim eu poderia guardá-la junto das outras, mas tenho medo de que eu não seja capaz de simplesmente guardá-las.
Eu gasto tanto tempo tentando entender como aconteceu que me pergunto de verdade: e se não houver motivos? E se foi apenas porque não tínhamos mais nada um pelo outro? Eu sinto muito por ter machucado você, sinto muito mesmo. Eu nunca pretendia machucar alguém, muito menos você. Eu amava você muito mais do que você pensa. Você olhava para as pessoas e via coisas boas nelas. Era estranho: você olhava para pessoas horríveis fazendo coisas desprezíveis e, mesmo assim, sorria para elas e tentava ser gentil. Não sei explicar, eu só… Eu só… Eu nunca quis ferir você.
Atenciosamente,
Lauro