Querida Joana,
Eu te conheci por acaso, nunca me preocupei de verdade com ninguém, pelo menos acho que não. Sinto que nunca experimentei sentimentos genuínos por ninguém em toda a minha vida, tenho grandes dúvidas sobre a minha capacidade de amar; talvez eu tenha nascido com alguma peculiaridade estranha, não sei. Quando era criança, as outras pessoas me chamavam de "aquilo" e até hoje não entendo bem o que isso queria dizer; só tenho medo de nunca descobrir como tudo isso começou. Não sei se o problema está no apelido ou se se tornou uma parte dolorosa de mim, após ter ficado tanto tempo guardada.
De qualquer forma, não consigo descrever como nosso término me afetou, ou talvez eu consiga, não com palavras, mas com fatos. O primeiro fato é que não tomei banho há mais de uma semana; comecei a encarar o vazio com mais frequência do que o normal – você sabe, sempre fiz isso enquanto estávamos juntos e grande parte das nossas discussões terminava assim, eu te ouvindo reclamar porque eu olhava mais para o nada do que para você, ou algo semelhante. Hoje, sinto falta disso, sinto falta de como você se lamentava de absolutamente tudo. Outro fato é que passo todos os dias em frente àquele restaurante onde costumávamos ir; sinto falta do meu prato favorito, macarrão ao molho branco, e ainda mais do seu prato favorito, embora eu não me lembre do nome. Mesmo que eu pudesse pedir, não seria o seu prato favorito, seria o "meu seu prato favorito", e seria estranho, por isso passo na frente do restaurante e não entro. Uma vez, fiquei na porta, limpei o sapato no tapete e pensei que conseguiria entrar, mas não consegui.
O quarto fato é que... não consigo entender a razão do nosso término. Às vezes fico refletindo se foi pela toalha na cama ou pelo fato de eu falar alto demais, mas realmente questiono se não foi por todas as vezes em que permaneci em silêncio enquanto você ria de algo completamente bobo – como naquela vez que você riu descontroladamente de um cachorro latindo para a parede; eu não conseguia compreender como aquilo podia ser tão engraçado para você, mas era.
Eu disse que te amava milhares de vezes, quase todos os dias ao longo dos 9 anos que permanecemos juntos, mas me lembro de uma vez em que tive certeza, uma certeza que nunca havia sentido antes; olhei em seus olhos e pensei: eu acho que te amo, então falei, mas pela primeira vez não compreendi realmente o que estava dizendo. Foi engraçado, naquele momento percebi que talvez o amor não seja algo para ser entendido, mas sim algo para ser sentido; senti isso de verdade naquele dia. Pensei que seria melhor não compartilhar isso com você antes, pois eu... eu tinha medo... muito medo de que você me achasse tão estranho quanto eu me considero.
Lembra daquele dia em que fomos ao parque e não conseguimos entrar em nenhum brinquedo porque você passou horas tentando acertar os tiros suficientes para ganhar o Bibo? Nossa, aquela pelúcia ainda me assusta, confesso que sempre que você a colocava ao lado da cama, eu dormia mal.
Joana, estava plantando algumas flores na sua jardineira favorita quando senti o que acredito ser saudade, medo e preocupação; não sei. Mas eu amo você, gostaria que estivesse aqui comigo, então corri para a cozinha, peguei o papel e comecei a escrever. Desculpe, peço desculpas de verdade, não sei o motivo de você ter terminado comigo naquela manhã, mas sinto sua falta. Principalmente sinto falta do seu sorriso, que contagiava todos ao redor; de alguma forma, não me afetava. Talvez eu seja muito rabugento, talvez eu tenha defeitos demais, e por isso você tenha ido embora, mas realmente sinto sua falta. Você deveria voltar.
Com saudade de você, Lauro
15 de Outubro de 2004
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