Eu tenho tanta coisa para falar sobre minha relação com cartas que poderia fazer isso em ordem cronológica. Lembro de uma vez que recebi um presente de natal e uma carta, foi uma caixa de biscoitos natalinos, um dia deliciosamente feliz – comi todos os biscoitos bem mais rápido do que deveria. Depois desse dia passei a enviar cartas para “eu do futuro”, às vezes o futuro era muito distante (anos), mas a maior parte das vezes o futuro era muito próximo – a ansiedade batia e demorava apenas alguns minutos para que eu abrisse minha “caixinha” de correios (uma sapateira, onde eu também guardava a minha coleção de aranhas preservadas em cera). As cartas iam de pequenas fofocas, histórias de ficção, páginas de um diário, melodramas chorosos, conselhos até esperanças vazias. Certa vez joguei no mar uma garrafa com uma pequena carta prometendo voltar, tantas vezes eu queimei cartas com pedidos para o Papai Noel em velas de natal, outras tantas vezes escrevi cartas para Deus. E o que dizer de todas as cartas de amor que nunca foram entregues? Porém, a pior de todas as cartas foi aquela jamais lida, aquela fruto de uma esperança imensa que jamais foi respondida. Que esperança estranha aquela com completa ausência de lógica ou sentido. E todas as cartas que coloquei em cápsulas do tempo? Todas as vezes que escrevi e enterrei cartas, mas nunca pude recuperá-la? Meu pai me ajudava a colecionar cartões de presentes, também colecionei papéis de cartas. Tudo fazia sentido. Então, depois de anos vivendo em torno de cartas, escrever se tornou a minha forma favorita de me expressar. Aqui vocês irão acompanhar as minhas ficções escritas nesse formato.
Segunda carta
Querido Lúcio, Eu não consegui dormir ao decorrer dessa noite, Aurélio V teve coragem de me levar ao salão da casa dele, com diversas pessoas estranhíssimas e me acusar de ser fascista, eu até pensei em me defender e teria argumentos o suficiente para dizer que não sou facista, se eu soubesse o que isso…
Leia maisPrimeira carta
Querido Lúcio, Não sei se você conseguiu acompanhar o que houve em casa ao decorrer daquela noite, por isso, estou aqui para explicar o que aconteceu na esperança que você não se preocupe comigo ou com seu pai. Nós estávamos preparando o jantar, um ótimo par de traseiro assado com bacon, a receita favorita dele…
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Querida Joana, Eu te conheci por acaso, nunca me preocupei de verdade com ninguém, pelo menos acho que não. Sinto que nunca experimentei sentimentos genuínos por ninguém em toda a minha vida, tenho grandes dúvidas sobre a minha capacidade de amar; talvez eu tenha nascido com alguma peculiaridade estranha, não sei. Quando era criança, as…
Leia maisSobre quanto amei você – Carta 02
Querida Joana, Desde que lhe enviei a última carta fiquei a espera de uma resposta sua, não consigo entender porque não me respondeu, quer dizer, uma vez há muitos anos você disse que era insuportável se relacionar comigo, pois todas as vezes que brigavamos eu escrevia um longo texto, no começo você ainda tinha paciência…
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Lauro, Eu revisitei algumas coisas que me disse, as vezes não há nada a perdoar, pois infelizmente não fui eu que errei, quando você entrou na minha vida eu era feliz, sério, era mesmo. Eu ria fácil, ainda acreditava em algumas coisas, pensava sobre o futuro constantemente e imaginava que ele seria feliz, não apenas…
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