Primeiro texto do universo nixano.

Querido Lúcio,
Não sei se você conseguiu acompanhar o que houve em casa ao decorrer daquela noite, por isso, estou aqui para explicar o que aconteceu na esperança que você não se preocupe comigo ou com seu pai. Nós estávamos preparando o jantar, um ótimo par de traseiro assado com bacon, a receita favorita dele para a noite de lembranças do primeiro massacre, quando vi a guarda – a clássica túnica com calças pretas cobertas por uma armadura azul profundo, nunca imaginei que esses soldados que inspiram as miniaturas decorativas do dia da Lembrança de Nixa iriam invadir a minha casa. Quer dizer, desde que comecei a rebelião sabia que essa possibilidade existia, mas não achei que eles teriam coragem.
Após entrarem na nossa casa eles levaram a mim, seu pai, André e Rodrigo para um avião – luxuosíssimo, mas a situação de estar completamente amordaçada me impediu de aproveitar. Depois de algumas horas de vôo no qual fomos mantidos separados, pousamos em Palo, Província de Aurélio, fomos recebidos por quinze nixanos revoltados que tentaram nos tirar das mãos dos guardas, porém, para o nosso azar eles não conseguiram, ao contrário, todos também foram presos.
Hoje pela manhã uma das empregadas me perguntou entre sussuros se eu não gostaria de escrever uma carta para alguém, eu pedi a ela dois papéis e uma caneta. A primeira carta escrevi para o seu pai que segundo ela está em um quarto de outro pavimento, a segunda escrevo para saber se você está seguro, acredito que Hiana tenha o levado para casa de Gina, espero que ela seja capaz de educá-lo adequadamente, pois você precisará de toda a força possível para derrotar, Aurélio V.
Aurélio V é um nixano presunçoso, ele não tem disposição para entender o que estamos fazendo, estamos tentando evitar… Evitar… Bem, agora eu não sei explicar direito, apenas estávamos querendo tirar Rodrigo da colônia penal. E também tirar o seu tio, Cássio X, não consigo entender como chegamos até aqui.
Isso é certamente a maior prova de tudo que sempre falei para sua irmã, pessoas boas morrem cedo, não que seja errado fazer uma caridade de vez em quando, eu mesmo já entreguei alguns presentes no orfanato uma vez. Mas se arriscar pelos outros é uma tolice, o mal sempre estará mais disposto, então quando se escolhe ser bom, está escolhendo morrer.
Querido, sempre contei essa história para sua irmã e ela nunca me ouviu, mas você me entenderá. A melhor pessoa que já conheci era uma freira chamada Augusta, ela era absolutamente bondosa, cuidava de nós no orfanato, levava presentes, comidas maravilhosas, nos ouvia. Quando ela entrava no ambiente, ele se tornava maravilhoso, foi isso que a levou a morte, certa vez um grupo estranho de pessoas invadiram o orfanato, ela se pôs em frente das crianças para protegê-los, como resultado foi dilacerada na frente de todos nós… O trauma que isso nos gerou foi absurdo. Pensando bem, talvez as pessoas que invadiram o orfanato fossem nixanos, não tenho certeza, mas isso não importa agora.
Enfim, agora pouco importa o motivo dela ter morrido, importa que morreu por ser boa, nisso as pessoas boas são extraordinárias, morrerem. O que realmente é relevante é o nosso estado, acredito que vamos sair dessa situação, certamente Hiana irá conseguir nos tirar daqui, mas me preocupo com sua segurança até que eu esteja de volta, se alimente bem.
Eu fui chamada para uma reunião com Aurélio V, quando cheguei ele disse desdenhoso que realmente vai me matar, nossa é muito mais fácil conversar com a esposa dele com quem eu dormi algumas vezes, ele é tão arrogante. Ele teve coragem de me dizer que iria me matar, matar Cássio, Rodrigo e André – imagino que iria atrás de matar Hiana também caso soubesse da existência dela. Sorte dela ser tão furtiva, eu também já fui furtiva e foi durante uma fuga que nos encontramos.
Mas são tantas coisas que preciso ensinar e falar para você antes que me matem. Não consigo nem imaginar por onde começar, posso começar pelo dia que nasci. Meus pais eram pessoas incríveis, eram realmente pessoas boas. Acidentalmente eu os matei antes de conviver muito com eles, então não poderei contar muito sobre os seus avôs. Bem, foi assim: eu tinha 6 anos, estávamos de mudança para outra cidade, pois meu pai que era policial estava com problemas por ter trabalhado em um caso contra um grupo criminoso que tinha muitos contatos políticos na cidade e acabou sendo perseguidos por eles.
Não tendo aprendido a lição, no dia da mudança ele decidiu parar para ajudar uma pessoa completamente estranha a atravessar a rua, minha mãe estava colocando umas caixas no caminhão quando um carro tentou desviar de mim no meio da estrada – eu estava brincando de colocar pregos na rua para furar os pneus – mas o carro derrapou de atropelou meu pai, o sangue dele e da idosa se espalhou na rua, foi uma cena muito cruel para uma criança assistir, até hoje não superei o trauma. Quando corri para minha mãe em busca de proteção, ela se atrapalhou, esbarrou em uma caixa que acabou caindo sobre ela quebrando muitos cacos de vidros que a mataram lentamente, foi uma experiência horrível assistir a minha mãe sangrando até morrer, pois um caco rasgou a garganta dela, hoje penso que teria sido mais fácil para nós duas se a tivesse matado de uma vez, porém infelizmente, eu era muito jovem.
Algumas horas depois, já era madrugada, o socorro chegou, passei horas sentada no meio fio assistindo ela agonizar até que finalmente uma vizinha decidiu olhar pela janela – engraçado que lembro dela ser muito fofoqueira e sempre denúnciar para minha mãe quando eu enterrava os gatos dela no quintal, mas esse dia ela decidiu não ver o motivo de um carro ter capotado.
Eu estava ali, sentada quando a polícia chegou, tenho certeza que um vizinho que jantava em nossa casa todos os domingos sorriu quando viu o meu pai parecendo um balão de aniversário murcho. Depois disso fui levada ao hospital, passaram horas tentando achar parentes que pudessem ficar comigo, mas óbvio que a minha família covarde não queria me oferecer abrigo e correr o risco de morrer também. Então eu fui levada para o orfanato, era legal, uma época onde as crianças ficavam presas em montes dentro de quartos, foi a minha primeira experiência em uma cela nixana, pode se dizer – eu ficava presa num quarto com outras crianças raspando a tinta da parede para comer, pois só passava um mingau horroroso de milho pela portinhola três vezes ao dia.
A vida no abrigo ficou muito melhor depois que Douglas entrou, ele era um lindo cara, eu já tinha 10 anos e ele estava com 11, aparentemente ele foi levado por uma bobagem sobre ter se envolvido em muitos arrastões, certo dia ele me confessou que ficou feliz em ser levado para o abrigo, pois lá fora ele dormia em uma praça cujo o relógio tocava de hora em hora, era péssimo, ele mal conseguia dormir. Além de só conseguir comer quando roubava alguém rico, a maior parte das vezes a bala só servia para comprar um pacote de salgadinho que tinha que dividir com dez pessoas. Nos aproximamos muito, várias crianças eram adotadas, outras morriam – nós nem éramos chamados para entrevistas e não morremos também, pois roubávamos o mingau das outras crianças. Enfim, foi um bom período.
O problema foi depois que Augusta morreu. De algum modo muito estranho as crianças começaram a sumir do orfanato com mais frequência, diziam que estavam sendo adotadas, mas só as crianças obesas? Achávamos estranho demais aquela situação – também começaram a nos alimentar melhor, quer dizer, passaram a nos alimentar com castanhas, acho que podia ter algo a ver com presunto espanhol. Decidimos fugir quando ganhamos 20 quilos e finalmente fomos chamados para uma entrevista onde o casal parecia salivar ao nos ver.
O plano de fuga na verdade foi muito simples, mal tinha segurança dentro do orfanato, ele era escuro, totalmente quebrado, as camas não tinham os lençóis trocados por anos, muitas vezes tinha um cheiro terrível de urina, quando Augusta era viva, era muito melhor, os meninos tinham penicos e não podiam urinar na parede como cachorros. Estou me perdendo, chegou a noite, pulamos a janela usando o bom e velho truque de amarrar lençóis, pensamos em levar outros com a gente, mas realmente valeria a pena? Então invadimos a cozinha, pegamos comida e roubamos um dinheiro que estava na gaveta da diretoria, enfim fugimos. A polícia foi acionada, nunca nos achou, outros grupos nos acharam… Já mencionei que Douglas era preto? Depois explico melhor sobre isso.
Tenho que encerrar a carta por aqui, trouxeram o meu jantar, um pé – é a pior parte, preciso ficar roendo, tenho certeza que ele, Aurélio, fez de propósito… Eu deveria alertá-lo que a parte que prefiro da esposa dele é o pé. Amanhã, caso tudo dê certo, enviarei notícias do seu pai.
Com amor de sua mãe, Jordana
24º dia Brutus de 11124 d.N.
Segunda carta
Querido Lúcio, Eu não consegui dormir ao decorrer dessa noite, Aurélio V teve coragem de me levar ao salão da casa dele, com diversas pessoas estranhíssimas e me acusar de ser fascista, eu até pensei em me defender e teria argumentos o suficiente para dizer que não sou facista, se eu soubesse o que isso…
Poesia 03: Memória
A: Esquecer, nada pode ser melhor B: Deixar de estar em dias infelizes B: Assistir fechar todas as cicatrizes A: Viver das memórias ruins é pior A: Ser lembrada, isto é o melhor B: Rir de boas piadas por meses B: Ter a sensação que por muitas vezes A: Esteve guardada pelo amor maior C:…
Voto a Santa Terezinha – 6º Dia
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Voto a Santa Terezinha – 5º Dia
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