Eu amo escrever sobre o universo de Maria Antônia e Tadeu, eu acho apenas de “Madeu”. É uma história extremamente fofa sobre duas pessoas estranhas que foram isolados do mundo por conta de um evento que eles desconhecem, mas cuidam um do outro sem falarem muito sobre isso. A história era originalmente um romance que como todos os meus romances se tornaram uma coletânea de microcontos, pois prefiro escrever textos curtos e meu foco é falar sobre com Madeu chega na ilha, mas essa história tem uma longa precedência que apenas dou uma pincelada neste texto.

Imagem gerada por inteligência artificial

— Anda! Coloca essa arma na minha cabeça e atira — gritou João para Renata, que estava curvada, refletindo sobre o que tinham acabado de conversar. João tinha a “doença das pessoas que pensam demais”; Renata sabia disso desde que o conheceu na primeira semana da universidade, em uma conversa boba que estavam tendo sobre meio ambiente enquanto compartilhavam um cigarro. Não é uma história muito romântica de como conheceu o amor da sua vida, mas era a deles. Quando João começou a falar que ninguém realmente iria fazer algo para frear as mudanças climáticas, que toda a elite do mundo era imunda e os políticos só serviam para entreter as pessoas enquanto a verdadeira máquina era movimentada nos bastidores escuros e nebulosos de jantares em casas tão velhas que poderiam estar recheadas de fantasmas, caso eles de fato existissem, ela percebeu. O olhar dele era pesado, o sorriso era falso e as mãos tremiam num misto de raiva e medo. Desde então, era sempre assim: cada notícia ruim, cada palavra mal dita, cada ameaça de apocalipse. Ela aprendeu que esse era um péssimo charme dele, realçava a inteligência dele, tornava-o uma pessoa interessante de conversar, pois sempre estava informado sobre tudo, parecia não apenas um consumidor assíduo de jornais, mas um editor viciado no trabalho.

Renata não era assim, nunca foi; de alguma forma, ela era o oposto disso. Quando receberam uma carta timbrada do governo, convidando-os para comparecer ao escritório de alguma coisa, e, chegando lá, informaram que eles haviam sido selecionados para “A Arca”, um bunker que o governo construía secretamente com a intenção de, “caso fosse necessário”, salvaguardar as “melhores mentes” de algum evento fatalista, ela se sentiu honrada. O secretário de alguma coisa dizia que eles haviam sido selecionados por terem um bom histórico escolar, terem desenvolvido pesquisas acadêmicas relevantes, estarem dentro dos padrões de “saúde, estética e higiene” desejáveis, além de estarem na idade reprodutiva. Ela, que nunca havia desejado ter filhos antes, passou a considerar que tê-los seria quase uma obrigação patriótica. 

No entanto, quando chegaram em casa, não tinha como ser diferente: João começou a vasculhar todas as notícias possíveis, desde notícias astronômicas até ameaças de guerra. Nada parecia estar realmente errado no mundo, então ninguém era capaz de compreender o que poderia estar acontecendo. João insistiu na investigação, tentava colher informações perdidas entre colegas da universidade — que podiam ter sido selecionados também —, familiares próximos que compartilhassem o mesmo “padrão desejado”, nada. Até que finalmente voltou ao escritório de alguma coisa. Depois de muito insistir, o responsável sussurrou algo, como se estivesse cansado de pessoas como ele, que não se contentavam apenas em terem sido eleitas, precisavam entender o motivo, talvez com um pouco de inveja, já que ele mesmo não tinha sido escolhido para estar na “A Arca”. — Você acha que, se houvesse um plano para destruir o mundo, eles colocariam nos jornais? — sorriu e voltou a carimbar papéis.

Demorou muito, meses, arquivos antigos, teorias da conspiração que “faziam algum sentido”, até que João começasse a ser perseguido nas ruas por pessoas estranhas. Ele teve que prestar alguns depoimentos sobre a sua rotina; nenhum deles parecia estar associado a algum crime relevante ou algo suspeito. Mais alguns meses, algumas conversas secretas, e ele chegou em casa abatido, alcoolizado e com o mesmo sorriso cínico de quando assistia ao jornal. Olhou para Renata e disse: “Quer saber por que construíram uma arca e fomos selecionados?”

— Diga — Renata deu de ombros, sabendo que a conversa provavelmente terminaria em alguma discussão sobre ela ter votado na direita antes de se casarem. 

— Vão matar a todos — ele sorriu, depois falou mais alto — vão matar a todos — parecia ter certeza de que alguém estaria escutando — fomos convidados para assistirmos o mundo acabar.

— Do que está falando?

Estou falando que o mundo é uma merda! E que todos podem ir à merda! Não tem nada de bom acontecendo, nada. Vão matar bilhões de pessoas, bilhões! Por que a porcaria do mundo não vai mais sustentar tanta gente viva e a imagem de criancinhas magras demais, pois não têm o que comer, está atrapalhando.

— Como você sabe disso?

— Olha, mísseis serão disparados por todos os lados, o inverno nuclear vai ser instalado — ele ignorou Renata. — Mandaram cápsulas com material genético e qualquer outra coisa estranha para cada canto do espaço, pois a merda do planeta vai acabar. De algum modo estão achando que casas de palafitas atrapalham o cartão-postal do planeta, então a única solução é exterminar todo mundo.

João sumiu da sala por alguns minutos, deixando Renata descrédula, mas sem querer discutir mais uma vez sobre o seu marido maluco e seu espírito revolucionário. Mas, quando ele voltou com uma arma, dizendo que o “mundo podia ir à merda, todos eram filhos da puta desgraçados” e uma câmera de vídeo, ela pensou que deveria intervir. — O que pretende fazer? Você está bêbado. Está enlouquecendo? Não tome nenhuma decisão estúpida agora.

Ele batia as teclas com raiva, escreveu e mandou e-mails com fúria. Nenhum realmente chegou para qualquer destinatário, depois gravou vídeos que ninguém viu, enquanto Renata não sabia se o consolava, deixava ele “fazer o que tinha que fazer” ou só ignorava. Ninguém viu, ninguém leu, mas ele passou a ser seguido com mais frequência. Um dia, no corredor da universidade, parou uma professora que, “de algum modo, ele sabia ter sido eleita também”. — Você sabe, precisamos avisar, precisamos alertar a todos.

— Não faça isso — ela deu de ombros. Enquanto João falava, ela apenas murmurava: “Não diga mais nada”, “Não sei do que está falando”, “Cale a boca”, “Este não é o lugar” e, por fim, “Não me obrigue a entregá-lo”. Foi essa última frase que afastou João. Ele parou de ir à universidade, se trancou em casa. Todas as vezes que Renata saía para trabalhar, encarava a arma em frente dele, enquanto ele ria de forma psicótica para o noticiário. Um dia Renata entrou em casa, pegou a arma dele e apontou para a testa dele.

— Você vai morrer, melhor que seja por mim — eles se encararam. Foi assim que chegaram ali, os dois parados na cozinha, se encaravam, choravam, conversavam muito sobre muitas coisas, sobre a infância, as suas primeiras vezes juntos, sobre amor, sobre esperança, sobre o nome dos filhos que talvez tivessem nascido em outra época, mas nada tirava dos dois a nuvem negra que dizia carinhosa: “vocês vão morrer”.

Renata, você sabe que não vai conseguir ser feliz em um bunker qualquer com gente esnobe e profundamente egoísta, enquanto sabe que tudo do lado de fora congelou. “Atire em mim” — ele saiu da cozinha e voltou com outra arma. “Deixe-me atirar em você também” — ela relutou enquanto ele gritava. “O mundo que se foda!” Eles que se fodam! Essa merda de plano não vai dar certo! Que tipo de monstro vai sair desses bunkers depois de anos escondidos debaixo da terra? É claro que vai dar errado, é óbvio. O que me conforta é saber que eles também vão morrer! Mas vão morrer sabendo que fizeram algo extremamente estúpido.

Ela finalmente tomou coragem e gritou: “O mundo que se foda!” Voltou com a arma para a cabeça dele, gritaram em uníssono mais uma vez e dispararam. Seis meses depois do sangue escorrer pelos dois corpos na cozinha, o céu ficou misteriosamente amarelo, depois cinza, as pessoas sumiram das ruas, porém, por algum motivo estranho, duas pessoas, Maria e Tadeu, haviam escolhido sobreviver do outro lado do mundo, sozinhas e felizes, talvez porque elas saibam bem menos do que está acontecendo ou talvez apenas porque são teimosas demais para desistir um do outro. De alguma forma, aquela pequena ilha onde se abrigam os braços um do outro e o amor expresso mais por gestos que por palavras é mais seguro que qualquer outro lugar (considere esse final um presente do Clube dos Finais Felizes).

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