Nunca houve a tentativa real de me ajudar, agora eu sei, ou sempre soube, desde que tudo começou. Você deve se perguntar porque ainda estou rindo, bem, é uma daquelas situações onde desde o primeiro dia eu sabia que a culpa seria minha, em partes de fato foi. Eu nunca quis ser especial, eu queria não ficar sozinha em um momento onde eu só podia estar sozinha.

Eu sou um tipo estranho de pessoa, eu faço o perfil psicológico que se espera de alguém que faria algo estupido assim. Mas juro que não sou essa pessoa, nenhuma das minhas partes é essa pessoa — se é que tenho partes. Eu poderia explicar muita coisa, mas sejamos honestos, a minha parte está mais que explicada e ninguém chegou a me perguntar algo. Suspeito que não irão perguntar em qualquer momento.

Eu passei a vida evitando problemas, passei a vida entrando calada nos lugares e saia ainda mais silenciosa. Passei a vida com medo de falar o que eu pensava, o que acreditava e com medo de dizer qualquer coisa sobre o mundo, até que veio a pandemia — pensei em usar um eufemismo, pois “pandemia” é uma palavra feia, mas desisti. 

Eu estava lá, sozinha, não tinha nada que eu pudesse fazer, ao menos eu achava que não, nunca fui realmente capaz de adivinhar que haveria tantas pessoas do outro lado. Achava super improvável que houvesse uma pessoa, achava ainda mais improvável que houvesse ainda mais pessoas. Eu me sinto confortável em saber que ao menos eu sei que foi mais inocência do que se pode imaginar.

Eu tinha medo do que poderiam fazer com a minha vida, mas honestamente, tudo isso é antigo, cansativo e tarde demais. Eu sou hipocondríaca, tenho transtorno do pânico e acho super errado quem põe a conta dos seus “erros” com imensas aspas em seus problemas mentais. Quando ele — pouparei seu nome, ao menos dessa vez — sugeriu que eram pessoas “perigosas” demais e todas as outras coisas horríveis, eu entrei em desespero, passei a achar que eram mesmo. Não falo isso para incriminá-lo.

Antes eu achava que eram N (coloque um número aleatório aqui) nerdolas solitários e dois influenciadores. Depois entrei em desespero tentando adivinhar, afinal quem eram as tais pessoas perigosas e como elas teriam entrado na minha vida. No fim era só isso, só informações vazadas na internet. No fim era só textos bobos, opiniões bobas, brincadeiras bobas, choros, piadas, conselhos, pequenos crimes, mentiras, histórias engrandecedoras, reacts a inúmeras coisas constrangedoras, verdades cruéis ditas em momentos dolorosos que eu já não preciso, tampouco desejo repetir, flertes, paixões, términos. Mas principalmente, era apenas eu, falando sozinha, torcendo que morresse antes da pandemia acabar, pois odiava a minha vida, tanto quanto se pode odiar. Quem diria que a cura viria de falar tudo que estava entalado? Boas coisas e ruins? Eu sou feliz, sério, no meio disso tudo me peguei sendo feliz, vomitei tudo que podia.

Acontece que estive feliz, feliz mesmo, feliz de verdade. Tão feliz quanto se pode ser, uma felicidade que só somos capazes de atingir depois de desistir da vida. Eu, realmente, me acabei de paixões por você, uma isca perfeita demais, em imperfeições e tudo mais, mesmo você nem sendo bonito. Eu não teria tentado pedir ajuda se não achasse que você iria morrer, enfim, não tenho mais motivos para ter inveja dos humanos das cavernas — gostaria de não precisar explicar isso, mas vou, era uma piada recorrente sobre querer morrer antes dos 30 anos.

Eu não tenho provas contra ninguém, mas suponho que todos têm provas contra mim. Então, sim, eu falo sozinha. Talvez todo mundo que passe muito tempo sozinho fale sozinho. E eu passei muito tempo sozinha. Se a vida é uma forca, fui eu mesma que me enforquei. Eu prefiro realmente não ter que explicar mais do que isso, não ter que explicar mais do que tudo que já tentei explicar, até porque, eu mesma não entendi. Sou eu mesmo, eu, Cibelis. Gostaria de dizer que foi um prazer conhecer todos vocês, mas não foi, foi engraçado, pois consegui rir de tudo isso e continuo conseguindo – cada vez menos – até agora. Eu posso ser a vilã, não que alguém tenha me perguntado, mas posso.

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