Eu sou capaz de entender o motivo de nunca terem escolhido me salvar, acho que essa é a principal razão: nunca souberam quem eu sou. Pois irei pedir licença para me apresentar. Eu nasci em 1997, em uma quarta-feira nenhum pouco especial, tentei achar no Google algum fato relevante que pudesse ter acontecido naquela data, mas nada relevante aconteceu.

Eu sei que minha primeira memória é estar sentada no colo do meu pai na sala estar, a segunda é de ter pensado que seria uma boa ideia colocar um caroço de mamão no ouvido. Eu posso nunca ter feito nada de especial, ter nascido em um dia ordinário, ter muito medo do futuro e não saber nem o motivo de ter colocado uma semente de mamão no ouvido, nem o motivo de terem escolhido me odiar, porém eu sou especial, especial para mim. Quando digo que eu sou culpada, estou dizendo isto: sou culpada de ter deixado tantas margens para duvidarem de quem eu sou, mas sempre soube que haviam pessoas horríveis lá fora, então me fechei no lugar mais seguro que existe, dentro de mim. E sim, durante a maior parte da minha vida, eu fui feliz sem entender exatamente o motivo.

Eu sou a pessoa que de algum modo estranho ama todo mundo, mesmo isso sendo difícil. Eu sou a pessoa que escolheria morrer por quase todo mundo, exceto pelas pessoas que me dão medo. Eu sou a pessoa que tinha medo de matar mosquitos e ir para o inferno. Eu sou aquela pessoa que fala pouquíssimo dos outros em público, aquela que ri de tudo sem motivo algum, aquela que vê coisas bonitas em pessoas que já se perderam totalmente.

Eu também sou a pessoa que morre de medo de ir para o inferno, mesmo não tendo certeza se ele existe, mas também não ando muito interessada em ir para o paraíso ou o purgatório, talvez algum religioso possa me ajudar com isso, mas tenho medo de viver eternamente. 

Eu também sou a pessoa que inventou que escreveria textos cujo os parágrafos começam com “eu” para representar o quanto me fechei em mim.

Eu sou a pessoa que flerta com os outros por diversão e por achar isso uma forma engraçada de vingança. Eu sou a pessoa que nunca aprendeu a dizer não, é triste, mas seria capaz de virar cobaia de um experimento social asqueroso só porque quero agradar, ser útil ou vejo bondade em gente que tem tão pouca bondade que nem faz questão de esconder.

Eu sou aquela que é preguiçosa, aquela que já desistiu da vida e por isso é tão feliz. Então, também sou aquela que acredita fortemente que um abraço cura todas as coisas, mas infelizmente, não gosto muito de distribuir abraços.

Eu sou a pessoa que faz piadas horríveis sobre assuntos horríveis, sou a pessoa que odeia de verdade — mas não ocupo o tempo dos outros com isso. A minha lista de inimigos está cada vez menor com o passar dos anos, acho que poder ter esse desprendimento em relação a vida é maravilhoso. Certa vez me questionei quem eu seria, a única resposta que me veio foi que eu sou a pessoa que me ama, talvez a única pessoa que me ame, isso para mim é o suficiente.

Eu sou aquela que preferiu ir embora, por não querer ter que explicar mais nada, por estar cansada de brigar. Porém, honestamente já faz alguns anos que sou aquela que quer ficar em algum lugar, seja qual for esse lugar.

Eu revisei o texto agora e pensei em explicar meus defeitos, acabei explicando pouco sobre eles: eu acho divertidíssimo inventar mentiras sobre mim, já fui até filha de uma divindade grega por um tempo. Mas tenho medo que quando eu precise falar a verdade, não acreditem em mim. Detesto a ideia de saberem quem eu sou, onde moro ou qualquer coisa do gênero, mas amo poder ofender as pessoas quando estou sozinha.

Eu costumo dizer que carrego minha família comigo, pois eu acho que tenho TDI ou inventei isso ao longo da vida. Nenhuma delas é realmente ruim, mas no geral são muito engraçadas. Até onde eu sei não sou muito chegada a revoluções, não revoluções de verdade, a coisa que mais aprecio na vida é não ser envolvida em nada estranho, mesmo a minha vida sendo particularmente estranha e incompreensível.

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