Esta é uma época estranha para garotos como nós, disso eu não tenho dúvidas, mas me impressiona como ainda conseguimos rir um bocado, mesmo sabendo que tudo foi perdido. Tudo isso foi perdido muito antes de morrermos, muito antes. Então me peguei pensando que durante muitos anos da minha vida eu acreditei que eram com grandes gestos e grandes pessoas que o mundo se tornava melhor. Mas com o passar do tempo, passei a aceitar que a mudança vem de pequenos gestos e pequenas pessoas.

Por tanto tempo eu achei que poderia ser uma heroína, hoje não me culpo por não poder ser. Antes de nascermos era fácil, era simples, os vilões eram os caras malvados e os mocinhos eram pessoas como nós. O mal a ser derrotado tinha nome, muitas vezes endereço, ideologia, tudo alí apenas esperando a última marcha, então jovens felizes demais — a desdém da tragédia — enfrentavam o mundo com raiva.

Infelizmente hoje não é mais assim. Não me culpo por não sabermos separar os vilões dos mocinhos — às vezes parecem ser os mesmos. Não me culpo por termos acreditado tão fortemente que poderíamos ser heróis, nós não podemos.

Porém, eu continuo acreditando, em tudo que acreditei antes, talvez com ainda mais convicção, talvez com ainda mais esperança. Não serei eu a ver o mundo melhorar, não serei eu a compreender como o mundo poderá melhorar. Mas quem disse que eu quero continuar?

Não nos contamos as nossas histórias, mas se eu pudesse lhe contar, não lhe contaria, pois eu sei, sei mesmo, que não gostaria de gastar todo esse pouco tempo que resta falando sobre as coisas ruins que nos aconteceram. De um jeito perturbador, fui feliz, não por ser fácil, não por ter conquistado algo relevante, por não desistir de achar engraçado o empenho das pessoas em correrem atrás de coisas tão vãs, eu encontrei a minha felicidade sem nada, isso apenas um clube minúsculo seria capaz de fazer.

Hoje já posso me considerar uma pessoa curada. E essa, a melhor parte de mim, só eu conheci, essa que seria incapaz de odiá-los, só eu conheci. Não é doença, não é algo que se possa por esse rótulo, não está registrado em livros de medicina, não precisa ser provada, é a cura que poucos encontraram, nós encontramos. Gostaria de ter compartilhado com você, gostaria.

Para ser bem honesta, eu não queria morrer. Quem quer? De algum modo eu acreditei que para morrer era primeiro necessário aceitar a morte, tolice a minha, tanta tolice a minha. Você entenderá quando chegar sua hora, entenderá. No fim, antes é melhor morrer como vítima.

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