Eu amo escrever sobre o universo de Maria Antônia e Tadeu, que eu chamo apenas de “Madeu”. É uma história extremamente fofa sobre duas pessoas estranhas que foram isoladas do mundo por conta de um evento que elas desconhecem, mas cuidam uma da outra sem falar muito sobre isso. A história era originalmente um romance que, como todos os meus romances, se tornou uma coletânea de microcontos, pois prefiro escrever textos curtos, e meu foco é falar sobre como Madeu chega à ilha, mas essa história tem uma longa precedência, da qual apenas dou uma pincelada neste texto.
Imagem gerada por inteligência artificial
— Anda! Coloca essa arma na minha cabeça e atira — gritou João para Renata, que estava curvada, refletindo sobre o que tinham acabado de conversar.
João tinha a “doença das pessoas que pensam demais”; Renata sabia disso desde que o conheceu, na primeira semana da universidade, em uma conversa boba que estavam tendo sobre meio ambiente enquanto compartilhavam um cigarro. Não é uma história muito romântica de como conheceu o amor da sua vida, mas era a deles.
Quando João começou a falar que ninguém realmente iria fazer algo para frear as mudanças climáticas, que toda a elite do mundo era imunda e os políticos só serviam para entreter as pessoas enquanto a verdadeira máquina era movimentada nos bastidores escuros e nebulosos de jantares em casas tão velhas que poderiam estar recheadas de fantasmas, caso eles de fato existissem, ela percebeu. O olhar dele era pesado, o sorriso era falso e as mãos tremiam num misto de raiva e medo.
Desde então, era sempre assim: cada notícia ruim, cada palavra mal dita, cada ameaça de apocalipse. Ela aprendeu que esse era um péssimo charme dele, realçava a inteligência dele, tornava-o uma pessoa interessante de conversar, pois sempre estava informado sobre tudo. Parecia não apenas um consumidor assíduo de jornais, mas um editor viciado no trabalho.
Renata não era assim, nunca foi. De alguma forma, ela era o oposto disso. Quando receberam uma carta timbrada do governo, convidando-os para comparecer ao escritório de alguma coisa, e, chegando lá, informaram que eles haviam sido selecionados para “A Arca”, um bunker que o governo construía secretamente com a intenção de, “caso fosse necessário”, salvaguardar as “melhores mentes” de algum evento fatalista, ela se sentiu honrada.
O secretário de alguma coisa dizia que eles haviam sido selecionados por terem um bom histórico escolar, terem desenvolvido pesquisas acadêmicas relevantes, estarem dentro dos padrões de “saúde, estética e higiene” desejáveis, além de estarem na idade reprodutiva. Ela, que nunca havia desejado ter filhos antes, passou a considerar que tê-los seria quase uma obrigação patriótica.
No entanto, quando chegaram em casa, não tinha como ser diferente: João começou a vasculhar todas as notícias possíveis, desde notícias astronômicas até ameaças de guerra. Nada parecia estar realmente errado no mundo, então ninguém era capaz de compreender o que poderia estar acontecendo.
João insistiu na investigação, tentava colher informações perdidas entre colegas da universidade — que podiam ter sido selecionados também —, familiares próximos que compartilhassem o mesmo “padrão desejado”, nada. Até que finalmente voltou ao escritório de alguma coisa.
Depois de muito insistir, o responsável sussurrou algo, como se estivesse cansado de pessoas como ele, que não se contentavam apenas em terem sido eleitas, precisavam entender o motivo, talvez com um pouco de inveja, já que ele mesmo não tinha sido escolhido para estar n’A Arca.
— Você acha que, se houvesse um plano para destruir o mundo, eles colocariam nos jornais? — sorriu e voltou a carimbar papéis.
Demorou muito: meses, arquivos antigos, teorias da conspiração que “faziam algum sentido”, até que João começasse a ser perseguido nas ruas por pessoas estranhas. Ele teve que prestar alguns depoimentos sobre a sua rotina; nenhum deles parecia estar associado a algum crime relevante ou algo suspeito.
Mais alguns meses, algumas conversas secretas, e ele chegou em casa abatido, alcoolizado e com o mesmo sorriso cínico de quando assistia ao jornal. Olhou para Renata e disse:
— Quer saber por que construíram uma arca e fomos selecionados?
— Diga — Renata deu de ombros, sabendo que a conversa provavelmente terminaria em alguma discussão sobre ela ter votado na direita antes de se casarem.
— Vão matar a todos — ele sorriu, depois falou mais alto: — Vão matar a todos! — Parecia ter certeza de que alguém estaria escutando. — Fomos convidados para assistirmos ao mundo acabar.
— Do que está falando?
— Estou falando que o mundo é uma merda! E que todos podem ir à merda! Não tem nada de bom acontecendo, nada. Vão matar bilhões de pessoas, bilhões! Por que a porcaria do mundo não vai mais sustentar tanta gente viva, e a imagem de criancinhas magras demais, pois não têm o que comer, está atrapalhando.
— Como você sabe disso?
— Olha, mísseis serão disparados por todos os lados, o inverno nuclear vai ser instalado — ele ignorou Renata. — Mandaram cápsulas com material genético e qualquer outra coisa estranha para cada canto do espaço, pois a merda do planeta vai acabar. De algum modo, estão achando que casas de palafitas atrapalham o cartão-postal do planeta, então a única solução é exterminar todo mundo.
João sumiu da sala por alguns minutos, deixando Renata descrente, mas sem querer discutir mais uma vez sobre o seu marido maluco e seu espírito revolucionário. Mas, quando ele voltou com uma arma, dizendo que o “mundo podia ir à merda, todos eram filhos da puta desgraçados” e uma câmera de vídeo, ela pensou que deveria intervir.
— O que pretende fazer? Você está bêbado. Está enlouquecendo? Não tome nenhuma decisão estúpida agora.
Ele batia as teclas com raiva, escreveu e mandou e-mails com fúria. Nenhum realmente chegou a qualquer destinatário. Depois, gravou vídeos que ninguém viu, enquanto Renata não sabia se o consolava, deixava ele “fazer o que tinha que fazer” ou simplesmente o ignorava.
Ninguém viu, ninguém leu, mas ele passou a ser seguido com mais frequência. Um dia, no corredor da universidade, parou uma professora que, “de algum modo, ele sabia ter sido eleita também”.
— Você sabe, precisamos avisar, precisamos alertar a todos.
— Não faça isso — ela deu de ombros.
Enquanto João falava, ela apenas murmurava: “Não diga mais nada”, “Não sei do que está falando”, “Cale a boca”, “Este não é o lugar” e, por fim, “Não me obrigue a entregá-lo”.
Foi essa última frase que afastou João. Ele parou de ir à universidade, trancou-se em casa. Todas as vezes que Renata saía para trabalhar, encarava a arma em frente a ele, enquanto ele ria de forma psicótica para o noticiário.
Um dia, Renata entrou em casa, pegou a arma dele e apontou para a testa dele.
— Você vai morrer, melhor que seja por mim.
Eles se encararam. Foi assim que chegaram ali, os dois parados na cozinha. Encaravam-se, choravam, conversavam muito sobre muitas coisas, sobre a infância, suas primeiras vezes juntos, sobre amor, sobre esperança, sobre o nome dos filhos que talvez tivessem nascido em outra época, mas nada tirava dos dois a nuvem negra que dizia, carinhosa: “Vocês vão morrer”.
— Renata, você sabe que não vai conseguir ser feliz em um bunker qualquer com gente esnobe e profundamente egoísta, enquanto sabe que tudo do lado de fora congelou.
— Atire em mim.
Ele saiu da cozinha e voltou com outra arma.
— Deixe-me atirar em você também.
Ela relutou enquanto ele gritava:
— O mundo que se foda! Eles que se fodam! Essa merda de plano não vai dar certo! Que tipo de monstro vai sair desses bunkers depois de anos escondidos debaixo da terra? É claro que vai dar errado, é óbvio. O que me conforta é saber que eles também vão morrer! Mas vão morrer sabendo que fizeram algo extremamente estúpido.
Ela finalmente tomou coragem e gritou:
— O mundo que se foda!
Voltou com a arma para a cabeça dele, gritaram em uníssono mais uma vez e dispararam.
Seis meses depois de o sangue escorrer pelos dois corpos na cozinha, o céu ficou misteriosamente amarelo, depois cinza. As pessoas sumiram das ruas, porém, por algum motivo estranho, duas pessoas, Maria e Tadeu, haviam escolhido sobreviver do outro lado do mundo, sozinhas e felizes, talvez porque elas saibam bem menos do que está acontecendo ou talvez apenas porque são teimosas demais para desistir uma da outra.
De alguma forma, aquela pequena ilha onde se abrigam nos braços um do outro, e onde o amor é expresso mais por gestos que por palavras, é mais segura que qualquer outro lugar.
(Considere esse final um presente do Clube dos Finais Felizes.)
Cibelis Santos
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A minha decoração de casa favorita seria esta: uma pequena cabana de madeira, alguns arbustos de flores, uma estrada de pedra — daquelas roxas e amarelas que lembram a minha infância. Mas, principalmente, seria um lugar onde eu pudesse me perguntar: “Quando não se sabe mais o que fazer, nem ao certo o que está acontecendo, e parece que tudo está perdido, o que se pode fazer?”
A resposta viria com o eco nas paredes do cantarolar das músicas “Yesterday” e “Three Little Birds”. Não é curioso como elas têm o imenso poder de limpar a mente mesmo nos momentos mais agitados? Imagine uma casa com uma almofada especial, totalmente feita para sentar-se e comprometer-se a não pensar sobre tudo que há de errado no mundo, em nós ou nos outros. Um belo lugar seria esse.
Pense agora que essa casa tem cheiro de erva-doce. Os suspiros ali sempre saem perfeitos para se colocar sobre uma torta de qualquer coisa. A janela aberta para o mundo não apenas nos entretém, antes, convida-nos a esquecer a fragilidade da vida.
A porta não é apenas uma porta comum, mas um portal verde vibrante, convidando a transformar os nossos defeitos em pequenas qualidades ou erros bobos. Ali, qualquer pequeno erro seria tolerado; o amor sempre daria um jeito de passar pelas brechas para tomar o mundo, como se o que sobrasse lá dentro fosse tanto que precisasse transbordar.
Agora imagine que essa casa tem um oratório, não um comum, onde imagens de santos e familiares se mesclam, mas um onde, de pés descalços, se pudesse confessar os seus pecados — tão poucos —, então sentir suas preces atendidas e o perdão. Um lugar daqueles onde não se cobra dinheiro para entrar, muito menos tempo para sair, um pedaço do céu tornando qualquer confusão nesta certeza: não importa o quão ruim o mundo fique, ainda estaremos seguros.
Ah, pense nesse lugar: uma cozinha que convida ao sorriso. A cama que convida ao descanso. Os raios de sol iluminando cada parte das nossas vidas. Uma sala tranquila nos lembrando que o mundo lá fora é cruel, mas aqui dentro não importa quem é mau; apenas ouça a casa convidar para seguir em frente.
As paredes não prendem, apenas separam os pensamentos ruins, todas as partes erradas de um mundo caótico das pequenas partes de respirar um pouco, sorrir e não saber de nada, porém confiar que, a passos lentos, muito lentos, o bem anda vencendo não só fora, não só dentro, mas, aos poucos, em cada um de nós. -
Querida Joana,
Eu te conheci por acaso. Nunca me preocupei de verdade com ninguém, pelo menos acho que não. Sinto que nunca experimentei sentimentos genuínos por ninguém em toda a minha vida. Tenho grandes dúvidas sobre a minha capacidade de amar; talvez eu tenha nascido com alguma peculiaridade estranha, não sei. Quando era criança, as outras pessoas me chamavam de “aquilo” e, até hoje, não entendo bem o que isso queria dizer; só tenho medo de nunca descobrir como tudo isso começou. Não sei se o problema está no apelido ou se se tornou uma parte dolorosa de mim, após ter ficado tanto tempo guardada.
De qualquer forma, não consigo descrever como nosso término me afetou, ou talvez eu consiga, não com palavras, mas com fatos. O primeiro fato é que não tomo banho há mais de uma semana; comecei a encarar o vazio com mais frequência do que o normal — você sabe, sempre fiz isso enquanto estávamos juntos, e grande parte das nossas discussões terminava assim, eu te ouvindo reclamar porque eu olhava mais para o nada do que para você, ou algo semelhante. Hoje, sinto falta disso. Sinto falta de como você se lamentava de absolutamente tudo.
Outro fato é que passo todos os dias em frente àquele restaurante onde costumávamos ir; sinto falta do meu prato favorito, macarrão ao molho branco, e ainda mais do seu prato favorito, embora eu não me lembre do nome. Mesmo que eu pudesse pedir, não seria o seu prato favorito, seria o “meu seu prato favorito”, e seria estranho. Por isso, passo na frente do restaurante e não entro. Uma vez, fiquei na porta, limpei o sapato no tapete e pensei que conseguiria entrar, mas não consegui.
O quarto fato é que… não consigo entender a razão do nosso término. Às vezes, fico refletindo se foi pela toalha na cama ou pelo fato de eu falar alto demais, mas realmente questiono se não foi por todas as vezes em que permaneci em silêncio enquanto você ria de algo completamente bobo — como naquela vez que você riu descontroladamente de um cachorro latindo para a parede. Eu não conseguia compreender como aquilo podia ser tão engraçado para você, mas era.
Eu disse que te amava milhares de vezes, quase todos os dias ao longo dos nove anos que permanecemos juntos, mas me lembro de uma vez em que tive certeza, uma certeza que nunca havia sentido antes. Olhei em seus olhos e pensei: “Eu acho que te amo”. Então falei, mas, pela primeira vez, não compreendi realmente o que estava dizendo. Foi engraçado. Naquele momento, percebi que talvez o amor não seja algo para ser entendido, mas sim algo para ser sentido; senti isso de verdade naquele dia. Pensei que seria melhor não compartilhar isso com você antes, pois eu… eu tinha medo… muito medo de que você me achasse tão estranho quanto eu me considero.
Lembra daquele dia em que fomos ao parque e não conseguimos entrar em nenhum brinquedo porque você passou horas tentando acertar tiros suficientes para ganhar o Bibo? Nossa, aquela pelúcia ainda me assusta. Confesso que, sempre que você a colocava ao lado da cama, eu dormia mal.
Joana, estava plantando algumas flores na sua jardineira favorita quando senti o que acredito ser saudade, medo e preocupação; não sei. Mas eu amo você. Gostaria que estivesse aqui comigo, então corri para a cozinha, peguei o papel e comecei a escrever. Desculpe, peço desculpas de verdade. Não sei o motivo de você ter terminado comigo naquela manhã, mas sinto sua falta. Principalmente, sinto falta do seu sorriso, que contagiava todos ao redor; de alguma forma, não me afetava.
Talvez eu seja muito rabugento, talvez eu tenha defeitos demais e, por isso, você tenha ido embora, mas realmente sinto sua falta. Você deveria voltar.
Com saudade de você,
Lauro -
SOPA S/A é uma grande empresa de tecnologia dedicada a facilitar a vida de todas as pessoas que possam pagar extremamente caro pelos seus serviços. Há quem pense que uma empresa assim só pode ser gerida por um grande gênio, mas, para decepção de todos, a empresa é gerida por um robô cuja programação era originalmente a consciência do fundador da empresa, Sr. Quincas. Porém, após ser infectado por um vírus, ele teve seu arquivo corrompido. O vírus atacou especialmente o sistema de fala do robô, então, atualmente, ele só repete três frases: “Seu projeto está aprov[…]”, “Inf[…] seu projeto foi […]ago” e a única frase que não foi corrompida é o slogan da empresa: “Estamos aqui por você!”
Semanalmente, o robô Quincas celebra sua famosa reunião de investimentos, onde jovens entram em sua sala, apresentam um relatório dos seus projetos e esperam ansiosamente pelo “sim” do fundador. A primeira a entrar na sala naquele dia foi a Senhora Vânia, uma mulher que mais se parece com uma garota, com uma camisa de rock, o rosto cheio de marcas de espinhas e o cabelo bagunçado. Os olhos são fundos, mas, escondidos por trás dos óculos pesados, parecem os de alguém realmente inteligente. Ela havia proposto, na semana passada, que poderia criar uma simulação perfeita do seu bairro, mas não explicou bem ao certo qual seria a utilidade dela.
O fundador gostou da ideia, por isso decidiu investir alguns milhões e emprestar um dos supercomputadores da empresa para ela. Não demorou muito tempo para Vânia ter a ideia de colocar pessoas dentro da simulação, especificamente os seus ex-namorados e interesses românticos não correspondidos. Também decidiu adicionar uma aceleração de tempo: na simulação, os dias equivalem a anos. O que ela não esperava era que os seus interesses românticos fossem tão inteligentes quanto ela. Então, obviamente, eles perceberam que havia algo de errado por volta do segundo dia. No terceiro dia, eles começaram a encomendar peças para criarem o próprio supercomputador. No quarto dia, veio o problema.
— Sr. Quincas, eles conseguiram criar um supercomputador que lhes revelou estarem em uma simulação. Agora pensam em processar a empresa que os colocou na simulação — explicou constrangida. Então esperou uma resposta.
— Estamos aqui por você! — disse o robô, relutante, ao que a mesa diretora traduziu como um sinal de que ela deveria continuar a explicar. Um dos diretores mencionou que a SOPA S/A não poderia ser processada naquele ano, pois toda a verba destinada a indenizações havia se esgotado no terceiro mês.
— Os senhores não precisam se preocupar muito com isso. Por enquanto, na verdade, eu tive uma ideia para contornar o problema — ela sorriu como se fosse uma ideia brilhante. — Quando percebi o que pretendiam fazer, programei o computador deles para permitir que responda apenas três perguntas sobre o lado de fora da simulação. A primeira, eles gastaram perguntando quem teria colocado eles ali, ao que o supercomputador deu uma longuíssima resposta que, na prática, não respondia nada.
— Estamos aqui por você! — falou como se concordasse que a ideia da apresentadora fosse genial.
— A segunda pergunta, um deles fez por completo impulso, escondido dos demais, após uma crise de choro por estar com saudades da mãe — a mesa ficou tensa. — Ele apenas perguntou se poderia saber qual era o clima do lado de fora da simulação, pois gostava de dias ensolarados.
— Estamos aqui por você?! — perguntou surpreso.
— Eu também me surpreendi. Ele é muito inteligente, mas acho que está com problemas emocionais desde que começou a usar muita erva. Bem, esse foi o motivo do nosso término…
— Estamos aqui por você — interrompeu.
— Voltando, desde então estou mandando um boletim diário sobre o clima e inventando algumas mensagens sobre a mãe dele. Ele está bem melhor, mas agora está sem muitos amigos na simulação. Para ser sincera, ele nunca teve muitos amigos. Esse foi o segundo motivo do término.
Então, os diretores começaram a cochichar algo. Ela decidiu continuar:
— O terceiro pedido ainda não foi feito. Eles estão discutindo muito sobre qual pergunta fazer. Eu estou receosa de que eles acabem perguntando algo sobre a empresa. Enfim, talvez o melhor seja desligar e começar novamente.
Depois de muita discussão filosófica sobre ética, bioética e problemas profundos da humanidade, a mesa diretora decidiu que era mais seguro desligar a simulação. Então, Quincas disse:
— Seu projeto está aprov[…]
A mesa diretora não conseguiu entender as motivações dele, mas ninguém ali seria capaz de vencê-lo na argumentação. -
Todos nós sabemos que os valorosos agentes da APA — Agência de Proteção das Augustas — fazem todo o esforço possível para proteger as informações da agência, as Augustas e seus funcionários, principalmente da ACA — Agência de Combate às Augustas. Mas, algumas vezes, esses encontros são impossíveis de serem evitados. Infelizmente, foi o que ocorreu na sorveteria: um agente da APA encontrou um agente da ACA. Não ajuda muito o fato de a sorveteria favorita das duas agências ser a mesma.
Alguns eventos foram celebrados entre as duas; neles, alguns acordos foram estabelecidos. Dentre eles, um dizia que, de segunda até quarta-feira, apenas os funcionários da APA poderiam ir à sorveteria, mas, de quinta-feira até sábado, apenas os funcionários da ACA poderiam ir — uma gentileza concedida pela APA. No domingo, cada agência é obrigada a ir para sua segunda sorveteria favorita, que não são as mesmas, mas ficam próximas. Este é outro problema que a APA está tentando solucionar.
Porém, a ACA não respeita o acordo, então, infelizmente, algumas vezes eles se encontram na sorveteria. Hoje, por exemplo, eles se encontraram no estacionamento e a briga começou, pois o agente da APA Serafim — condecorado com quinze estrelas por ter comido 150 paçocas em dois minutos — encontrou o agente da ACA Gregório — condecorado com duas nebulosas por alguma coisa ridícula envolvendo cachorro-quente.
Eles entraram em uma discussão, pois estavam trabalhando no mesmo caso envolvendo a proteção de uma Augusta chamada Terezinha, e Serafim suspeitava que ele estava recebendo ajuda de outras organizações para incriminá-la. Quando confrontou Gregório, ele respondeu:
— No dia em que nós precisarmos da ajuda de outras agências para incriminar uma Augusta, nós mudamos nosso nome para APA — disse, desdenhoso, como se cuspisse as palavras.
Claro que Serafim ficou ofendido, porém decidiu manter a calma. Infelizmente, os agentes da APA precisam controlar suas emoções ou são acusados de serem fracos por eles. Não é que a acusação realmente ofenda, mas o placar de “Augustas salvas” é extremamente desfavorável para a APA, tanto que deixou de ser o objetivo real da agência. Nos bastidores, os próprios agentes repetem o lema: “Não protegemos Augustas, protegemos a tentativa de dar uma chance de elas fazerem alguma coisa”.
Então, mantendo a dignidade da cartilha da APA, ele respondeu:
— Mas esse é o seu jeito de agir, Gregório — disse com desdém.
A discussão durou alguns minutos. Em certo momento, agentes da APA tiveram que segurar Serafim para que ele não arremessasse casquinhas de sorvete em Gregório, o que tiraria toda a honra da agência. Em certo momento da discussão, Serafim gritou:
— E todos os casos de vendas ilegais de tartarugas que você colocou na ficha do Benedito?
— Mas aquilo nós fizemos apenas por diversão.
Serafim ficou enfurecido. Afinal, Benedito tinha sido uma de suas Augustas, que trabalhava em um caso de invenção da cura da vontade de repetir a sobremesa, mas foi preso pela ACA logo após inventá-la.
— Como você pode dizer que prendeu uma das melhores pessoas que já existiram apenas por diversão?
— É o que nós fazemos.
Serafim não podia fazer muita coisa além de murmurar. Infelizmente, foi assim que o encontro dos dois agentes se encerrou. Não se pode esperar outra coisa, pois, na realidade, as duas agências se odeiam há muitos anos, por muitos motivos.
No fim, os agentes da APA sabem que sua missão sempre irá falhar, mas torcem para que o trabalho das Augustas sirva para construir algo bom — infelizmente, pela experiência deles, Augustas quase sempre morrem antes de verem o resultado do próprio trabalho.
Nesse caso em que Serafim está trabalhando, todas as provas incriminadoras não foram suficientes para prejudicarem a vida de Terezinha. Ela conseguiu sair ilesa por enquanto, ao menos enquanto o Clube dos Finais Felizes tiver ao menos um membro.
Esta que vos escreve.
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O que você faria se não pudesse fazer mais nada? O que faria se estivesse prestes a morrer e finalmente precisasse escolher quem você é, do que gosta, o que quer para sua vida, no que acredita e o que quer fazer pelos seus últimos anos? Eu escolheria facilmente escrever, mas, sobre escolher quem se deseja ser, essa é uma resposta bem mais complicada.
Acredito que, se eu tivesse alguns bons amigos que me conhecessem profundamente, conhecessem de verdade, eles diriam que eu sou uma imensa narcisista que, todas as vezes que passa na frente do espelho, manda um beijo imaginário para si mesma, mas, por incrível que pareça, pensa mais nos outros e no mundo do que eu mesma imagino. Possivelmente, eles diriam que eu sou obcecada por fazer coisas por mim, escrever para mim, desenhar para mim, falar comigo, rir das próprias piadas e esconder detalhes da minha vida que dificilmente alguém próximo imaginaria.
Provavelmente diriam que eu acredito firmemente que o mundo é dividido entre pessoas boas, pessoas omissas e pessoas ruins. Infelizmente, como todo o meu texto deixa claro, diriam que eu acredito que as pessoas ruins vencem cada batalha que travam — mas não a guerra. De algum modo meio augustiano, eu acredito que, de pessoa boa em pessoa boa, o mundo se torna um lugar um pouquinho melhor. A soma dos pequenos gestos, de algum modo, está servindo para criar um mundo melhor. Isso parece óbvio. Mesmo acreditando em tudo isso, eu não sei dizer em qual categoria me encaixo — talvez ninguém saiba realmente onde se encaixa.
Então, temos um problema. Se algo ruim — seja físico, mental ou de qualquer outra natureza — avançasse contra mim, dia após dia, até chegar o momento em que eu devesse decidir o que quero ser ou fazer, diria: quero ser eu, de alguma forma torta, estranha e com pouco conhecimento de causa, mas eu, até o fim. Resistir não é algo que se faça por teimosia pura; resistir é o resultado de continuar, dia após dia, tentando não sucumbir ou aceitando que irá sucumbir.
Enfim, esse é o melhor conselho que posso dar. Não é sobre encontrar algo novo, conhecer alguém novo, não é sobre tentar algo novo ou ter pensamentos sobre o que virá em seguida. Planejar a vida, infelizmente, não costuma trazer grandes resultados quanto se pensa. Ela é incerta, confusa, muitas vezes não faz sentido algum e parece que o destino decidiu colocar pedras de propósito no caminho. Porém, só podemos continuar sendo o que sabemos ser. Se falharmos, sabemos que erramos com sinceridade — talvez o mundo tenha um pouco de culpa; se acertarmos, sabemos que acertamos com sinceridade — talvez o mundo tenha um pouco de mérito.
Mas quem eu seria se não fosse eu? Quem eu seria se não pudesse acreditar que, juntando várias pequenas peças, formaremos um mundo um pouquinho melhor? Quem eu seria se parasse de tentar?
No fim, essas coisas são estranhas. A vida é estranha. Olhamos para o mundo à espera de que ele nos diga o que fazer, nos diga quem devemos ser e até onde podemos ir ou não. Mas, quando o mundo responde, só consigo ser eu. Enquanto continuar sendo sincera, continuar tentando saber quem você é e continuar sendo você, só restará uma saída: saber se o mundo serve para você ou deixá-lo.
Pode ser que chegue um momento em que você mesma perceba que o mundo não serve para si, não é agradável o bastante ou simplesmente não vale a pena. É nesses momentos que tudo deixa de ser um turbilhão dentro de nós e passa a ser certeza, a certeza de que se fez tudo o que podia ser feito.
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Intenções
1º Dia — Clero
2º Dia — Santos
3º Dia — Famílias
4º Dia — Vocações
5º Dia — Enfermos
6º Dia — Amor a Cristo
7º Dia — Prisioneiros
Oração a Santissima Trindade
Pai, Filho e Espírito Santo: eu vos agradeço por todas as graças com que enriqueceste a vida de vossa serva, Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, nestes 24 anos que passou na terra. E pelos méritos de tão querida santinha, concedei-me a graça que ardentemente vos peço, se for conforme a Vossa Santíssima Vontade e para a salvação de minha alma.Oração a Santa Terezinha
Ó, Santa Teresinha do Menino Jesus, modelo de humildade, de confiança e de amor! Do alto dos céus, despeje sobre nós estas rosas que levas em teus braços: a rosa da humildade para que vençamos nosso orgulho e aceitemos o jugo do Evangelho; a rosa da confiança para que nos abandonemos à vontade de Deus e descansemos em Sua Misericórdia; a rosa do amor para que, abrindo nossas almas sem medida à graça, realizemos o único fim para o qual Deus nos criou à sua imagem : Amar- Lhe e fazer- Lhe amar. Tu que passas teu Céu fazendo o bem na terra, ajuda-me nesta necessidade e concede-me do Senhor o que te peço, se for para glória de Deus e para o bem de minha alma. AmémOração votiva
Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos agradeço todos os favores, todas as graças com que enriquecestes a alma de Vossa serva Teresa do Menino Jesus durante os 24 anos que passou na Terra.
Pelos méritos de tão querida santinha, conceda-me a graça que ardentemente Vos peço – fazer o pedido –, se for conforme a Vossa Santíssima vontade e para salvação de minha alma.
Ajudai minha fé e minha esperança, ó Santa Teresinha, cumprindo, mais uma vez, sua promessa de que ninguém vos invocaria em vão, fazendo-me ganhar uma rosa, sinal de que alcançarei a graça pedida.
24 recitações
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como era no princípio, agora e sempre. Amém.Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, rogai por nós.
Ave Maria
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.Pai Nosso
Pai nosso, que estais nos Céus, santificado seja o Vosso Nome; venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. AmémVinde Espirito Santo
Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. Oremos: Ó Deus que instruíste os corações dos vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos da sua consolação. Por Cristo Senhor Nosso. AmémÓ Meu Jesus
Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.Glória
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.