Eu sou capaz de entender o motivo de nunca terem escolhido me salvar, acho que essa é a principal razão: nunca souberam quem eu sou. Pois irei pedir licença para me apresentar.
Eu nasci em 1997, em uma quarta-feira nada especial. Tentei achar no Google algum fato relevante que pudesse ter acontecido naquela data, mas nada relevante aconteceu.
Eu sei que minha primeira memória é estar sentada no colo do meu pai na sala de estar. A segunda é de ter pensado que seria uma boa ideia colocar um caroço de mamão no ouvido.
Eu posso nunca ter feito nada de especial, ter nascido em um dia ordinário, ter muito medo do futuro e não saber nem o motivo de ter colocado uma semente de mamão no ouvido, nem o motivo de terem escolhido me odiar. Porém, eu sou especial, especial para mim.
Quando digo que eu sou culpada, estou dizendo isto: sou culpada de ter deixado tantas margens para duvidarem de quem eu sou, mas sempre soube que havia pessoas horríveis lá fora, então me fechei no lugar mais seguro que existe, dentro de mim. E sim, durante a maior parte da minha vida, eu fui feliz sem entender exatamente o motivo.
Eu sou a pessoa que, de algum modo estranho, ama todo mundo, mesmo isso sendo difícil. Eu sou a pessoa que escolheria morrer por quase todo mundo, exceto pelas pessoas que me dão medo. Eu sou a pessoa que tinha medo de matar mosquitos e ir para o inferno. Eu sou aquela pessoa que fala pouquíssimo dos outros em público, aquela que ri de tudo sem motivo algum, aquela que vê coisas bonitas em pessoas que já se perderam totalmente.
Eu também sou a pessoa que morre de medo de ir para o inferno, mesmo não tendo certeza se ele existe, mas também não ando muito interessada em ir para o paraíso ou o purgatório. Talvez algum religioso possa me ajudar com isso, mas tenho medo de viver eternamente.
Eu também sou a pessoa que inventou que escreveria textos cujos parágrafos começam com “eu” para representar o quanto me fechei em mim.
Eu sou a pessoa que flerta com os outros por diversão e por achar isso uma forma engraçada de vingança. Eu sou a pessoa que nunca aprendeu a dizer não. É triste, mas seria capaz de virar cobaia de um experimento social asqueroso só porque quero agradar, ser útil ou vejo bondade em gente que tem tão pouca bondade que nem faz questão de esconder.
Eu sou aquela que é preguiçosa, aquela que já desistiu da vida e, por isso, é tão feliz. Então, também sou aquela que acredita fortemente que um abraço cura todas as coisas, mas, infelizmente, não gosto muito de distribuir abraços.
Eu sou a pessoa que faz piadas horríveis sobre assuntos horríveis. Sou a pessoa que odeia de verdade — mas não ocupo o tempo dos outros com isso. A minha lista de inimigos está cada vez menor com o passar dos anos. Acho que poder ter esse desprendimento em relação à vida é maravilhoso.
Certa vez, me questionei quem eu seria. A única resposta que me veio foi que eu sou a pessoa que me ama, talvez a única pessoa que me ame. Isso, para mim, é o suficiente.
Eu sou aquela que preferiu ir embora, por não querer ter que explicar mais nada, por estar cansada de brigar. Porém, honestamente, já faz alguns anos que sou aquela que quer ficar em algum lugar, seja qual for esse lugar.
Eu revisei o texto agora e pensei em explicar meus defeitos. Acabei explicando pouco sobre eles: eu acho divertidíssimo inventar mentiras sobre mim, já fui até filha de uma divindade grega por um tempo. Mas tenho medo de que, quando eu precise falar a verdade, não acreditem em mim.
Detesto a ideia de saberem quem eu sou, onde moro ou qualquer coisa do gênero, mas amo poder ofender as pessoas quando estou sozinha.
Eu costumo dizer que carrego minha família comigo, pois acho que tenho TDI ou inventei isso ao longo da vida. Nenhuma delas é realmente ruim, mas, no geral, são muito engraçadas.
Até onde eu sei, não sou muito chegada a revoluções — não revoluções de verdade. A coisa que mais aprecio na vida é não ser envolvida em nada estranho, mesmo a minha vida sendo particularmente estranha e incompreensível.
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Nunca houve a tentativa real de me ajudar, agora eu sei, ou sempre soube, desde que tudo começou. Você deve se perguntar porque ainda estou rindo, bem, é uma daquelas situações onde desde o primeiro dia eu sabia que a culpa seria minha, em partes de fato foi. Eu nunca quis ser especial, eu queria não ficar sozinha em um momento onde eu só podia estar sozinha.
Eu sou um tipo estranho de pessoa, eu faço o perfil psicológico que se espera de alguém que faria algo estupido assim. Mas juro que não sou essa pessoa, nenhuma das minhas partes é essa pessoa — se é que tenho partes. Eu poderia explicar muita coisa, mas sejamos honestos, a minha parte está mais que explicada e ninguém chegou a me perguntar algo. Suspeito que não irão perguntar em qualquer momento.
Eu passei a vida evitando problemas, passei a vida entrando calada nos lugares e saia ainda mais silenciosa. Passei a vida com medo de falar o que eu pensava, o que acreditava e com medo de dizer qualquer coisa sobre o mundo, até que veio a pandemia — pensei em usar um eufemismo, pois “pandemia” é uma palavra feia, mas desisti.
Eu estava lá, sozinha, não tinha nada que eu pudesse fazer, ao menos eu achava que não, nunca fui realmente capaz de adivinhar que haveria tantas pessoas do outro lado. Achava super improvável que houvesse uma pessoa, achava ainda mais improvável que houvesse ainda mais pessoas. Eu me sinto confortável em saber que ao menos eu sei que foi mais inocência do que se pode imaginar.
Eu tinha medo do que poderiam fazer com a minha vida, mas honestamente, tudo isso é antigo, cansativo e tarde demais. Eu sou hipocondríaca, tenho transtorno do pânico e acho super errado quem põe a conta dos seus “erros” com imensas aspas em seus problemas mentais. Quando ele — pouparei seu nome, ao menos dessa vez — sugeriu que eram pessoas “perigosas” demais e todas as outras coisas horríveis, eu entrei em desespero, passei a achar que eram mesmo. Não falo isso para incriminá-lo.
Antes eu achava que eram N (coloque um número aleatório aqui) nerdolas solitários e dois influenciadores. Depois entrei em desespero tentando adivinhar, afinal quem eram as tais pessoas perigosas e como elas teriam entrado na minha vida. No fim era só isso, só informações vazadas na internet. No fim era só textos bobos, opiniões bobas, brincadeiras bobas, choros, piadas, conselhos, pequenos crimes, mentiras, histórias engrandecedoras, reacts a inúmeras coisas constrangedoras, verdades cruéis ditas em momentos dolorosos que eu já não preciso, tampouco desejo repetir, flertes, paixões, términos. Mas principalmente, era apenas eu, falando sozinha, torcendo que morresse antes da pandemia acabar, pois odiava a minha vida, tanto quanto se pode odiar. Quem diria que a cura viria de falar tudo que estava entalado? Boas coisas e ruins? Eu sou feliz, sério, no meio disso tudo me peguei sendo feliz, vomitei tudo que podia.
Acontece que estive feliz, feliz mesmo, feliz de verdade. Tão feliz quanto se pode ser, uma felicidade que só somos capazes de atingir depois de desistir da vida. Eu, realmente, me acabei de paixões por você, uma isca perfeita demais, em imperfeições e tudo mais, mesmo você nem sendo bonito. Eu não teria tentado pedir ajuda se não achasse que você iria morrer, enfim, não tenho mais motivos para ter inveja dos humanos das cavernas — gostaria de não precisar explicar isso, mas vou, era uma piada recorrente sobre querer morrer antes dos 30 anos.
Eu não tenho provas contra ninguém, mas suponho que todos têm provas contra mim. Então, sim, eu falo sozinha. Talvez todo mundo que passe muito tempo sozinho fale sozinho. E eu passei muito tempo sozinha. Se a vida é uma forca, fui eu mesma que me enforquei. Eu prefiro realmente não ter que explicar mais do que isso, não ter que explicar mais do que tudo que já tentei explicar, até porque, eu mesma não entendi. Sou eu mesmo, eu, Cibelis. Gostaria de dizer que foi um prazer conhecer todos vocês, mas não foi, foi engraçado, pois consegui rir de tudo isso e continuo conseguindo – cada vez menos – até agora. Eu posso ser a vilã, não que alguém tenha me perguntado, mas posso. -
Creio com tudo o que posso em Cristo, muito além de ser o cordeiro de Deus, um símbolo de conduta. Se o tivessem ouvido, não estaríamos aqui. Creio absolutamente em santos, cada um deles, cada um que se colocou em pé para defender a humanidade, suas ideias, a república, a democracia, a fé.
Creio tanto em indivíduos que fazem tudo, fazem o bem, fazem o mal, fazem o que acreditam. Creio firmemente em pessoas, firmemente. Não foi fácil quebrar a Bastilha, mas quebraram. Não foi fácil navegar em uma jangada pela liberdade, mas navegaram. Não foi fácil morrer pela humanidade, mas quantos morreram?
Creio no arrependimento, no arrependimento coletivo que nos levará a perceber que o mundo já era perfeito. Era perfeito, cada coisa estava em seu lugar. Nada estava errado, nada.
Creio nisso tudo, nisso tudo e em bem mais que isso. Creio em tudo isso. -
Esta é uma época estranha para garotos como nós, disso eu não tenho dúvidas, mas me impressiona como ainda conseguimos rir um bocado, mesmo sabendo que tudo foi perdido. Tudo isso foi perdido muito antes de morrermos, muito antes.
Então me peguei pensando que, durante muitos anos da minha vida, eu acreditei que eram os grandes gestos e as grandes pessoas que tornavam o mundo melhor. Mas, com o passar do tempo, passei a aceitar que a mudança vem de pequenos gestos e pequenas pessoas.
Por tanto tempo eu achei que poderia ser uma heroína. Hoje não me culpo por não poder ser. Antes de nascermos, era fácil, era simples: os vilões eram os caras malvados e os mocinhos eram pessoas como nós. O mal a ser derrotado tinha nome, muitas vezes endereço, ideologia, tudo ali apenas esperando a última marcha. Então, jovens felizes demais — a despeito da tragédia — enfrentavam o mundo com raiva.
Infelizmente, hoje não é mais assim. Não me culpo por não sabermos separar os vilões dos mocinhos — às vezes parecem ser os mesmos. Não me culpo por termos acreditado tão fortemente que poderíamos ser heróis. Nós não podemos.
Porém, eu continuo acreditando em tudo em que acreditei antes, talvez com ainda mais convicção, talvez com ainda mais esperança. Não serei eu a ver o mundo melhorar, não serei eu a compreender como o mundo poderá melhorar. Mas quem disse que eu quero continuar?
Não nos contamos as nossas histórias, mas, se eu pudesse lhe contar, não lhe contaria, pois eu sei, sei mesmo, que não gostaria de gastar todo esse pouco tempo que resta falando sobre as coisas ruins que nos aconteceram.
De um jeito perturbador, fui feliz. Não por ser fácil, não por ter conquistado algo relevante, mas por não desistir de achar engraçado o empenho das pessoas em correrem atrás de coisas tão vãs. Eu encontrei a minha felicidade sem nada. Isso apenas um clube minúsculo seria capaz de fazer.
Hoje já posso me considerar uma pessoa curada. E essa, a melhor parte de mim, só eu conheci. Essa que seria incapaz de odiá-los, só eu conheci. Não é doença, não é algo que se possa pôr esse rótulo, não está registrado em livros de medicina, não precisa ser provada. É a cura que poucos encontraram. Nós encontramos.
Gostaria de ter compartilhado com você, gostaria.
Para ser bem honesta, eu não queria morrer. Quem quer? De algum modo, eu acreditei que, para morrer, era primeiro necessário aceitar a morte. Tolice a minha, tanta tolice a minha.
Você entenderá quando chegar sua hora, entenderá. -
Há um péssimo hábito que cultivei por muitos anos: tecer apostas com o diabo. Não porque eu tenha muita intimidade com ele, não tenho. Sei dele apenas o óbvio. Uma das primeiras apostas que fiz com ele foi que ele não conseguiria me encaminhar mal pela vida. Ainda era criança quando enterrei uma carta particularmente premonitória no galinheiro da minha casa. Em oposição às minhas próprias ações, acho que podemos dizer que Deus venceu essa aposta.
Anos se passaram e não perdi o péssimo hábito de testar o diabo. Infelizmente, deveria ter aprendido antes que ele é muito articulado. Foi quando, no auge da minha soberba, sugeri que 1.000 das minhas pessoas “boas” valeriam uma das pessoas boas dele — pensei pela raridade, achei até que nem encontraria alguém.
Eu apostava alto no meu país, nas minhas pessoas e em mim. Poucos saberão o quanto acreditei nas pessoas, onde cresci, enfim, não contei o placar. Uma pena perceber que não há nada de especial em nós. Não somos o país azarão que, por sorte, está caminhando para ser uma potência do bem-estar social. Somos o país azarão com uma tonelada de coisas para resolver, inclusive no que diz respeito à empatia.
Na minha inocência nacionalista, achei que a parte em que o povo era vassalo da nossa história havia passado. Achei que entre nós havia mais pessoas dispostas a serem justas do que dispostas a se aproveitarem da vulnerabilidade alheia para machucar e ferir. Tolices.
Certa vez, apostaram que qualquer pessoa poderia matar um inocente ao vivo, enquanto todos assistem, e ninguém faria absolutamente nada. Eu brandei contra! Alto lá, não no Brasil. Sei que todos os anos milhares de brasileiros inocentes são mortos, muitas vezes as fotos da tragédia são assistidas e ignoradas como se fossem apenas uma “segunda-feira banal”. Mas, alto lá, assistir ao passo a passo de uma pessoa ser ridicularizada, humilhada e morta, isto não. Isto o meu país jamais faria sem alguma reação, nem que fosse mínima. Isto não.
Na minha tolice, pensava: esse tempo já passou. A pior parte, a mais grotesca da nossa república, é um passado tão distante que ninguém verdadeiramente ficaria completamente omisso ao ver algo assim acontecer.
Pois bem, perdi.
Cá e acolá, ainda defendo: não sabem ao certo o que está acontecendo, não conhecem a vítima de verdade, estão sendo enganados, ludibriados ou apenas se deixaram levar pelo bonde.
Infelizmente, não. Infelizmente, tenho que chegar à conclusão de que perdi para o diabo.
Se Deus é brasileiro, ainda falta muito para cada brasileiro ter um pouco de Deus.
Perdi a aposta que menos desejei perder na vida. Apostei que meu país tinha algo de especial. Infelizmente, não tem.
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Eu tenho segredos a revelar. O maior de todos e mais doloroso deles é que gostaria de amar alguém antes de morrer. Não falo de “amar” com palavras, como tantas vezes na vida eu amei. Falo de amar de verdade. Amar.
Amar com gestos, com palavras, com afeto, com segurança, com proteção, com cuidado. Parece algo bobo, mas como poderia ser? Esse sentimento inventado, sim, inventado, tão inventado quanto a matemática ou a batedeira, moveu o mundo por séculos e séculos, criou teologias, poesias, dinastias e burguesias. Amar.
Não falo de amar o país, a família, os amigos, os animais de estimação, a vida ou qualquer outra coisa. Falo de amar alguém, uma pessoa, amar alguém que me ame também. Alguém que, por algum motivo totalmente inexplicável e sem motivo algum, tenha visto algo bom em mim. Amar.
Eu peço desculpas, extrapolei um pouco. O amor para mim ainda é um caso aberto. E, como todo caso aberto, ele é incerto, inseguro, assustador e exaustivo. Gostaria de amar antes de morrer. Amar. -
Uma garotinha decide marcar um encontro com o seu anjo da guarda todos os dias às 15 horas, e ele não sabe mais como convencê-la de que ela está no caminho certo.
Mariana era uma garota estranha. Não havia nada de muito belo nela, nem muito feio. Poderia-se dizer que tudo nela era normal, exceto pelo fato de que tinha marcado em sua agenda um compromisso extremamente importante todos os dias, às 15:00 horas. Ela devia ir para a igreja, onde conversava com um anjo que descia do céu especialmente para falar com ela.
Na primeira vez que isso aconteceu, ela levou um pequeno prato de comida, mas o anjo respondeu que não precisava lhe dar nenhuma oferta, pois o principal sacrifício já havia sido feito por Deus na cruz. Mesmo assim, Mariana levava um pratinho para garantir que ele não se sentisse ofendido.
As conversas costumam ser amigáveis, exceto quando Mariana começa a fazer perguntas excessivas sobre a vida, a sua fé ou o mundo. Mariana era uma pessoa bondosa na maior parte do tempo. Se perguntassem pela cidade sobre ela, diriam muitas coisas boas e algumas coisas ruins. Porém, as coisas ruins nem precisavam dizer, pois Mariana tem o hábito de confessar os próprios defeitos na primeira oportunidade que tem, não por ter orgulho deles, apenas por não ver motivos para escondê-los de ninguém. Certa vez, ela confessou o que considera ser o seu maior pecado: havia pegado uma fatia a mais de bolo do que deveria.
Sendo assim, as discussões costumam girar em torno de Mariana se acusar injustamente de ser a pior pessoa do mundo, enquanto o anjo a defendia de si mesma.
Neste dia, após uma conversa introdutória, o anjo lhe perguntou:
— Mariana, você costuma orar?
Mariana pensou um pouco e respondeu, totalmente segura de que estava certa:
— Se Deus sabe tudo o que penso, tudo o que sinto, tudo o que quero e tudo mais, por que deveria falar com ele? Apenas iria incomodá-lo.
O anjo sorriu, então respondeu:
— Mas e se ele quiser falar com você, mesmo que você não tenha nada de relevante a dizer?
Mariana pensou um pouco.
— Sobre o que ele gostaria de ouvir?
O anjo respondeu que talvez Deus quisesse ouvir sobre sua cor favorita, se ela preferia a noite ou o dia, se gostava quando tocavam violão ou se tinha medo de algo particularmente estranho.
Mariana não aceitou a resposta, claro. Se tivesse aceitado, não seria Mariana. Reclamou algo sobre Deus já saber de tudo isso.
O anjo voltou a dizer:
— Às vezes, Deus não quer descobrir algo novo sobre você, apenas conversar e saber que você é amiga o suficiente dele para falar algo engraçado.
— Eu deveria contar uma piada para Deus? — surpreendeu-se.
O anjo sorriu e concordou, dizendo que talvez isso fosse exatamente o que ele busca: alguém para lhe contar uma piada engraçada depois de um dia trabalhoso.
— Imagine que, depois de um dia tendo que organizar cada flor do planeta, Ele pare ao seu lado para ouvir algo engraçado.
— Ele não faria isso.
— Você realmente duvida que ele faria isso?
Depois de Mariana acenar, ele continuou:
— Pois faria ainda mais. Ele pararia tudo apenas para encontrá-la caso você se perdesse dele.
Uma pequena discussão seguiu-se, em que ela reclamava que ouvia muitas piadas na escola, mas sua péssima memória não havia guardado nenhuma para contar a Deus, enquanto o anjo dizia que não precisava ser uma piada, apenas qualquer fato, qualquer coisa, qualquer pensamento, mesmo que fosse apenas um “oi, tudo bem?” seguido de algo sobre o dia na escola.
Claro, Mariana continuou reclamando sobre não acontecer nada realmente interessante para surpreender ou despertar curiosidade em um ser eterno. Porém, ele insistia:
— Não precisa ser alguma novidade, pode ser algo simples.
Logo, Mariana voltou a resmungar.
Eles poderiam ter conversado ainda mais, mas, infelizmente, Mariana pulou correndo do banco da igreja, pois estava atrasada para o jantar.
Ele então subiu ao céu e foi falar com Deus:
— Então, como foi a conversa hoje? Conseguiu convencê-la a voltar a orar?
O anjo respondeu:
— Acho que sim. -
Marta recebeu uma chamada importante naquele dia. Era do sindicato dos armadilheiros, informando que havia um monstro em uma plantação, mas ninguém ainda havia conseguido capturá-lo. Por isso, decidiu chamar a melhor de todas as armadilheiras para esse trabalho. Marta já estava acostumada com esse trabalho, estava ainda mais acostumada a ser elogiada pelo seu brilhantismo em criar armadilhas perfeitas para monstros.
Bem, sendo honesta, os monstros só recebem esse nome por serem criaturas estranhas, mas, na realidade, não são monstros como o bicho-papão. Eles são apenas pessoas com estranhas habilidades mágicas que o sindicato dos armadilheiros prefere esconder da população comum. A armadilheira pegou todo o seu equipamento para captura de monstros. Por sorte, todos eles cabiam na sua super-maleta de armadilhas adquirida na SOUP Inc. Depois, subiu em sua caminhonete e zarpou para o local.
Chegando lá, viu que uma parte significativa da plantação tinha sido esmagada pelo que parecia uma criatura grande e pesada. Ela observou atentamente as pegadas no chão.
Seguindo o rastro de destruição deixado pela plantação, ela finalmente avistou a criatura, ou melhor, pessoa monstrificada — era alta, robusta, com a pele semelhante a uma casca de árvore. Toda ela era verde-escura e estava apenas parada, seus pés pareciam ter afundado na terra, enquanto seu cabelo abria-se como uma flor.
O primeiro ato de Marta foi pegar a sua câmera e tirar uma foto. Então, enviou-a para o sindicato dos armadilheiros. Enquanto esperava o relatório, ela vasculhou a área com a sua superlupa digital dos armadilheiros SOUP Inc. e achou um fio de cabelo preso em uma das plantas. Pegou-o e colocou-o no superexaminador de material biológico.
Enquanto esperava o resultado, continuou observando a besta parada. Algo parecia se mover dentro da barriga dela. Ela parecia estar inchando como uma massa de pão caseiro.
Então saiu o relatório do sindicato: monstro não identificado.
Marta pulou de felicidade. Gostava de capturar monstros, mas preferia quando capturava monstros que ainda eram desconhecidos pelo sindicato.
O primeiro teste que Marta aplica nos monstros é usando o superarpão microscópico de diamante SOUP Inc. Ele é usado para verificar a capacidade de resistência de um monstro. Então, ela mirou o arpão e atirou. O monstro nem sentiu a picada, mas foi o suficiente para Marta ter a resposta: o monstro tinha surpreendentes 20 pontos de resistência.
Depois, utilizando o superlaser medidor de saúde SOUP Inc., ela descobriu que o animal tinha surpreendentes 10 pontos de vida. Sem dúvidas, era um ser extremamente resistente. Faltava medir o ataque. Para isso, usava a superisca SOUP Inc., um pequeno drone que pentelha o monstro até ser atacado.
Ela lançou o drone. Então, ele passou a picar o monstro, que se mantinha parado, mas agora tinha o dobro do tamanho original. Depois de alguns minutos, o monstro abriu os olhos por coincidência, viu o drone e deu um peteleco. O drone mal sentiu: eram apenas 2 pontos de ataque.
Por fim, Marta recebeu o relatório do analisador de amostras biológicas, deixando claro que o monstro era resultado de uma mutação com uma célula de árvore.
Ela então elaborou seu plano de como capturá-lo. Primeiro, tentou com a arma sedativa, mas não fez efeito. Depois, tentou com o disparador de redes. O monstro percebeu e rasgou a rede facilmente. A terceira tentativa foi com o raio paralisante, que não teve efeito algum, pois o monstro já estava parado.
Então Marta teve a sua melhor ideia. Saiu da tocaia e começou a andar em direção ao monstro, que, quando a viu se aproximar, ficou com medo e correu um pouco. Ela notou que pareciam nascer nele duas pernas adicionais e um braço.
Voltou a correr atrás, e ele continuava a fugir, mas sempre parava mais cansado que anteriormente. Em uma dessas vezes, a besta começou a se tremer, tremer e tremer. Então, como em um estalo, o que antes eram apenas membros extras se transformou em uma novíssima besta ao seu lado — um clone que também começou a correr, mas em outra direção.
Marta decidiu continuar tentando capturar o monstro original e deixar o clone para depois. Foi isto que fez: continuou correndo, e o monstro, fugindo, até que finalmente caiu no chão, desmaiado de tanta exaustão.
O monstro, já cansado, foi arrastado para uma gaiola. Ela realizou minuciosamente o mesmo procedimento com o clone e, finalmente, Marta pôde levá-los para o sindicato dos armadilheiros. Lá, ela os batizou como Diascutum duplicatum, aos aplausos da plateia.
Os monstros foram enviados ao Monstro-ário, um espaço seguro onde eles podem viver felizes, como em seu habitat natural.
Diascutum duplicatum
R: 20 + 4 V.M.
V: 10 + 3 V.M.
A: 2 + 2 V.M.
M: 75 − 1 V.M.
P.E.E.: Fica invulnerável por 3 rodadas e só ele pode ser atacado.
P.E.: Ao custo de 100 de mana, pode clonar-se a cada 6 rodadas. -
O Clube dos Finais Felizes estende-se também aos monstros, ao menos foi isso que desejou Marta, a armadilheira. Ela faz o seu trabalho: quando o telefone toca, ela atende; então, extremamente animada, atravessa o salão, entra em sua caminhonete e chega ao local da ocorrência. Então, lá, ela começa a investigação: o monstro é avistado, estudado e prepara-se a armadilha.
Dessa vez, quando Marta atendeu o telefone, alguém disse:
— Você se esquivou e escapou por tanto tempo. Por que não tenta escapar agora? Você conhece o caminho que leva à morte e o caminho que pode levar à vida. Vai tentar o primeiro caminho apenas por teimosia? Para provar o quê? Provar que tem coragem? Provar que é forte? Disso todo mundo já sabe, todo mundo já percebeu isso.
Quer que eu lhe diga o quanto é forte? Então eu digo: você é muito forte. Eu secretamente admirei você por anos. Você é forte, garota, você completa os requisitos necessários para ser chamada de forte, em qualquer lista que proponham. Talvez você não consiga perceber isso agora, mas você venceu. Nenhuma batalha é vencida ilesa. Você não pediu para brigar, foi chamada para a briga, ficou firme, argumentou, chorou, riu, tentou ser agradável e agora está olhando para essas palavras, lendo-as e sabendo que mais pessoas do que você é capaz de imaginar acham você extremamente forte. Não precisa provar isso para ninguém, não precisa transformar o seu desejo de ser uma heroína em uma pulsão por morte.
Viva enquanto ainda dá tempo, esquive-se enquanto ainda for possível. O mundo é ruim, pior do que você imagina, muito pior. Há mais sofrimento no seu bairro que em todo o seu livro. Tente não ser estúpida. Você conseguiu escapar hoje, então: carpe diem. A guerra está perdida, mas a batalha até aqui, você venceu. Não seja uma heroína estúpida. Ninguém seria uma heroína estúpida por você. -
Olhem para nós aqui embaixo, solitários. Um mundo sem quem ensine a domá-lo, sozinhos vagando no nada. Sem filhos para ensinar ou pais de quem aprender.
Perdidos em um universo solitário e, além da barreira, mais solidão: os primeiros e também os únicos. Somos amaldiçoados? Cabe-nos, tão impotentes, o infinito?
Tomara que haja mais que nós, que a solidão não nos mate. Tomara que sejamos convidados a alguma fogueira. Tudo o que temos feito… Com quem compartilharemos? Quem contará nossas histórias quando sumirmos? Quem cuidará das nossas ruínas, nos mantendo vivos na memória?
Quem nos convidaria para a festa? Não se convida à mesa aqueles que não compreendem as regras. Talvez não compreendamos. Por isso, comemos sozinhos. Tomara que algum dia compartilhemos a mesa.
Compartilhemos suas histórias e seus heróis. Talvez os seus senhores não sejam como os nossos, cruéis e frios. Largaram-nos solitários em um universo imenso. Um brinquedo de pai relapso.
Mas, alerto: se vierem compartilhar do banquete, sejam gentis e humildes. Pois o medo nos criou. E, mesmo com nosso medo, nós partiremos pela imensidão de poeira, à busca de quem deseje dormir em nossa casa.
Esperamos que, nessa hora, Deus nos livre da nossa maldade. Às vezes somos violentos… Mas creia, queremos boa companhia.